Sumário
Quando o sinistro deixa de ser acaso
Trecho crítico. Por que contar sinistros não é suficiente
A falsa segurança das rodovias consideradas boas
Quando a infraestrutura falha de forma silenciosa
O peso do contexto urbano na gravidade dos sinistros
O trecho crítico como expressão da falha do sistema
Implicações para a gestão da segurança viária nos trechos urbanos
O que torna um trecho crítico de verdade
Quando o sinistro deixa de ser acaso
O crescimento das cidades brasileiras transformou profundamente a relação entre rodovias e espaço urbano. Vias originalmente concebidas para ligar municípios, com lógica rural de operação, passaram a ser engolidas pela expansão urbana e assumiram, na prática, o papel de avenidas estruturais. Essa transformação não foi acompanhada, na mesma medida, por uma adaptação da infraestrutura viária às novas funções que esses trechos passaram a desempenhar. O resultado é um cenário em que rodovias federais inseridas em áreas urbanas concentram uma parcela significativa dos sinistros de trânsito com vítimas graves e fatais.
Os dados analisados por Carmo e Raia Jr. mostram que quase metade dos sinistros registrados nas rodovias federais brasileiras ocorre justamente nesses trechos urbanos. Mais do que isso, a gravidade dos eventos se mantém elevada, indicando que o problema não está apenas na frequência dos sinistros, mas na severidade de suas consequências. Ao longo do período estudado, dezenas de milhares de pessoas sofreram lesões graves ou perderam a vida em sinistros ocorridos em segmentos urbanos das rodovias federais, evidenciando que esses espaços representam um ponto crítico do sistema viário nacional.
A leitura tradicional tende a explicar esse fenômeno a partir do comportamento dos usuários ou do aumento do volume de tráfego associado à urbanização. Embora esses fatores estejam presentes, o estudo demonstra que essa explicação é insuficiente. Ao segmentar toda a malha federal em trechos de dez quilômetros e contabilizar as vítimas graves e fatais em cada segmento, os autores revelam um padrão claro de concentração. Um número relativamente pequeno de trechos responde por uma parcela desproporcional das vítimas, o que indica que os sinistros não se distribuem de forma aleatória ao longo da rede. Há, portanto, características estruturais que tornam determinados trechos sistematicamente mais perigosos.
Esse achado é central para compreender o conceito de trecho crítico. Um trecho crítico não é definido apenas pela ocorrência pontual de um sinistro, mas pela recorrência de eventos graves ao longo do tempo. Quando quase trinta por cento das vítimas se concentram em cerca de um por cento dos trechos analisados, torna-se evidente que existe algo nesses segmentos que favorece a ocorrência de sinistros graves. Essa constatação desloca o foco da análise do evento isolado para o funcionamento do sistema viário como um todo.
Outro aspecto relevante evidenciado pelo estudo é que muitos desses trechos críticos estão inseridos em áreas urbanas de grande influência, como metrópoles e capitais regionais. São espaços marcados por alta densidade populacional, grande diversidade de deslocamentos e intensa mistura de fluxos locais e de passagem. Nessas condições, a rodovia deixa de operar apenas como eixo de ligação intermunicipal e passa a atender demandas urbanas complexas, envolvendo pedestres, motociclistas, veículos leves e pesados em um mesmo ambiente. Essa complexidade amplia a exposição ao risco e exige uma infraestrutura capaz de orientar e proteger os usuários de forma coerente.
No entanto, o estudo mostra que essa adaptação raramente ocorre de maneira adequada. A infraestrutura viária nesses trechos frequentemente apresenta inconsistências entre seus elementos constitutivos, como pavimento, geometria e sinalização. Mesmo quando o estado geral da rodovia é classificado como bom ou ótimo, falhas pontuais nesses componentes podem comprometer a segurança do conjunto. A presença de pavimento em boas condições, por exemplo, não garante redução da gravidade dos sinistros se a geometria da via ou a sinalização não forem compatíveis com o ambiente urbano em que o trecho está inserido.
Essas evidências permitem compreender o sinistro como um evento previsível dentro de um sistema que falha em se adaptar às condições reais de uso. Nos trechos urbanos críticos, o erro humano deixa de ser uma exceção imprevisível e passa a ser uma consequência esperada de um ambiente viário que induz comportamentos incompatíveis com a segurança. Assim, a análise proposta por Carmo e Raia Jr. aponta para a necessidade de enxergar os sinistros graves não como fatos isolados, mas como manifestações de falhas estruturais do sistema viário urbano, cuja compreensão é o primeiro passo para uma gestão mais eficaz da segurança viária.
Trecho crítico: por que contar sinistros não é suficiente
Quando se fala em identificar trechos críticos nas rodovias, a resposta mais comum costuma ser a contagem de sinistros. A lógica parece simples: onde há mais registros, ali estaria o maior problema. O estudo de Carmo e Raia Jr. demonstra, porém, que essa leitura é limitada e pode conduzir a interpretações equivocadas sobre a dinâmica real da insegurança viária em áreas urbanas. Contar sinistros é apenas o ponto de partida, não o critério suficiente para compreender por que determinados trechos concentram vítimas graves e fatais ao longo do tempo.
Ao segmentar toda a malha de rodovias federais brasileiras em trechos de dez quilômetros e distribuir as vítimas graves e fatais registradas entre 2010 e 2014, os autores revelam um padrão que não seria perceptível em análises pontuais. Foram identificados mais de três mil trechos urbanos com pelo menos uma vítima grave ou fatal no período. Esse dado, por si só, já indica que o problema é amplo e disseminado. No entanto, a análise se aprofunda ao observar a concentração das vítimas. Um grupo extremamente reduzido de segmentos, equivalente a cerca de um por cento do total, concentrou quase trinta por cento de todas as vítimas graves e fatais registradas nos trechos urbanos das rodovias federais.Essa concentração evidencia que os sinistros não se distribuem de maneira aleatória ao longo da rede. Se fossem eventos essencialmente fortuitos, a tendência seria uma dispersão mais homogênea das vítimas. O que se observa, ao contrário, é a repetição de ocorrências graves nos mesmos trechos ao longo de vários anos. Essa repetição caracteriza o trecho crítico como um espaço onde o risco se manifesta de forma persistente, independentemente das variações anuais no número total de sinistros. Assim, o conceito de criticidade deixa de estar associado ao episódio isolado e passa a estar ligado ao desempenho estrutural do trecho no tempo.
Outro aspecto importante revelado pela metodologia adotada é que a simples soma de sinistros pode mascarar diferenças relevantes entre os segmentos. Trechos com poucos registros em determinado período podem não parecer problemáticos em uma análise superficial, mas ainda assim apresentar características estruturais que favorecem a ocorrência de sinistros graves. Por outro lado, segmentos com elevado número de registros leves podem receber atenção prioritária, mesmo sem apresentar a mesma gravidade dos impactos observados em outros locais. Ao focar nas vítimas graves e fatais, o estudo desloca o olhar para aquilo que efetivamente expressa a falha mais severa do sistema viário.
A escolha de trabalhar com segmentos de extensão fixa também reforça a ideia de que o trecho crítico deve ser entendido como uma unidade territorial de análise. Em áreas urbanas, a rodovia não funciona como um ponto isolado, mas como um corredor que atravessa bairros, áreas comerciais e zonas residenciais, acumulando acessos, travessias e conflitos de uso. Avaliar apenas o quilômetro exato de um sinistro ignora a influência do entorno imediato e das características contínuas da via. Ao analisar trechos, torna-se possível relacionar a ocorrência dos sinistros com padrões de infraestrutura e de uso do solo que se mantêm ao longo de uma extensão significativa da rodovia.
Os resultados mostram que muitos dos trechos mais críticos estão inseridos em áreas urbanas densas e complexas, onde a rodovia assume múltiplas funções simultâneas. Nessas condições, a repetição de sinistros graves ao longo do tempo não pode ser atribuída ao acaso. Ela aponta para um sistema que, de forma recorrente, expõe seus usuários a situações de risco elevado. A previsibilidade do sinistro emerge justamente dessa recorrência. Quando o mesmo tipo de evento se repete nos mesmos locais, o problema deixa de ser imprevisível e passa a ser estrutural.
Dessa forma, o estudo evidencia que a identificação de trechos críticos exige ir além da contagem bruta de sinistros. É necessário compreender como a combinação entre infraestrutura viária e contexto urbano produz ambientes onde o erro humano é esperado e onde suas consequências tendem a ser graves. Contar sinistros ajuda a localizar o problema, mas somente a análise do padrão de concentração e da persistência das ocorrências permite entender por que certos trechos falham sistematicamente em proteger a vida. É a partir dessa compreensão que o conceito de trecho crítico ganha sentido como expressão de uma falha do sistema viário, e não como resultado de eventos isolados e desconectados.
A falsa segurança das rodovias consideradas boas
Um dos achados mais reveladores do estudo de Carmo e Raia Jr. está na aparente contradição entre a qualidade atribuída às rodovias e a gravidade dos sinistros registrados em seus trechos urbanos. Ao analisar os segmentos mais críticos, os autores identificaram que mais da metade deles foi classificada como boa ou ótima quando avaliada pelo estado geral da infraestrutura viária. À primeira vista, esse resultado pode parecer paradoxal, já que se espera que rodovias bem avaliadas ofereçam maior proteção aos seus usuários. No entanto, os dados mostram que essa expectativa nem sempre se confirma na prática.
Essa constatação exige uma reflexão mais cuidadosa sobre o que significa, de fato, uma rodovia ser considerada boa. A classificação de estado geral utilizada na Pesquisa CNT de Rodovias é construída a partir de uma avaliação agregada de diferentes elementos da via, como pavimento, geometria e sinalização. Essa avaliação busca medir o desempenho da rodovia em relação a critérios técnicos de conforto e fluidez, mas não incorpora diretamente a ocorrência de sinistros ou a gravidade de suas consequências. Assim, um trecho pode apresentar pavimento em boas condições e ainda assim expor seus usuários a riscos elevados.
Nos trechos urbanos analisados, essa dissociação torna-se ainda mais evidente. A boa qualidade do pavimento, por exemplo, pode favorecer velocidades mais elevadas, sobretudo em ambientes urbanos complexos, onde a presença de acessos, travessias e múltiplos modos de transporte exige maior cautela. Quando essa melhoria não é acompanhada por adequações na geometria da via e na sinalização, o resultado é um ambiente que induz comportamentos incompatíveis com a segurança necessária naquele contexto. O sistema, nesse caso, cria condições para que o erro humano produza consequências mais graves.
O estudo mostra que, embora muitos trechos críticos apresentem estado geral classificado como bom ou ótimo, poucos deles reúnem condições adequadas simultâneas de pavimento, geometria e sinalização. Apenas uma parcela reduzida dos segmentos analisados apresentou esses três fatores em níveis considerados satisfatórios. Isso indica que a avaliação global positiva pode ocultar falhas importantes em componentes específicos da infraestrutura, falhas essas que se manifestam justamente na gravidade dos sinistros registrados.
Essa situação contribui para a construção de uma falsa sensação de segurança. Para o usuário da via, um pavimento regular ou bem conservado transmite a percepção de que o ambiente é seguro e previsível. No entanto, se a sinalização é deficiente ou a geometria não é coerente com o uso urbano do trecho, essa percepção não corresponde à realidade do risco presente. O sinistro, nesse contexto, deixa de ser um evento inesperado e passa a ser uma consequência previsível de um sistema que comunica mensagens contraditórias aos seus usuários.
A análise dos trechos urbanos mais críticos reforça essa interpretação ao mostrar que a gravidade dos sinistros não diminui necessariamente em rodovias com melhor avaliação geral. Pelo contrário, em alguns casos, os sinistros com vítimas graves e fatais se concentram justamente onde a infraestrutura aparenta estar em melhores condições. Isso não significa que a degradação da via seja irrelevante para a segurança viária, mas sim que a qualidade isolada de um elemento, como o pavimento, não é suficiente para garantir proteção em ambientes urbanos complexos.
Esse achado desloca o foco da discussão sobre segurança viária. Em vez de buscar apenas melhorar a condição física da rodovia de forma pontual, o estudo evidencia a necessidade de coerência entre os diferentes componentes da infraestrutura e o contexto urbano em que o trecho está inserido. Uma rodovia considerada boa sob critérios tradicionais pode falhar em cumprir sua função básica de preservar a vida quando não reconhece as demandas e os conflitos próprios do espaço urbano que atravessa.
Ao revelar essa falsa segurança, o trabalho de Carmo e Raia Jr. contribui para compreender por que determinados trechos continuam a concentrar sinistros graves mesmo após intervenções que melhoram aspectos visíveis da infraestrutura. O problema não está apenas na ausência de qualidade, mas na inadequação do conjunto às condições reais de uso. Assim, a previsibilidade do sinistro emerge novamente como expressão de uma falha sistêmica, em que a aparência de segurança encobre riscos estruturais que permanecem ativos ao longo do tempo.
Quando a infraestrutura falha de forma silenciosa
A análise dos trechos urbanos mais críticos realizada por Carmo e Raia Jr. revela que a insegurança viária não se manifesta apenas quando a infraestrutura está visivelmente degradada. Em muitos casos, o problema surge de forma silenciosa, a partir de falhas menos perceptíveis, mas persistentes, nos elementos que compõem a rodovia. Essa constatação fica clara quando os autores desagregam a avaliação da infraestrutura viária e observam separadamente as condições de pavimento, geometria e sinalização nos segmentos com maior número de vítimas graves e fatais.
Ao contrário do que se poderia supor, o pavimento não se apresenta como o principal fator de fragilidade nesses trechos. Uma parcela significativa dos segmentos críticos possui pavimentação classificada como boa ou ótima, o que contribui para uma leitura inicial positiva da rodovia. No entanto, essa qualidade isolada não se traduz automaticamente em segurança. Quando analisados em conjunto, os dados mostram que a presença de um bom pavimento convive frequentemente com deficiências relevantes na geometria da via e, principalmente, na sinalização. Essa combinação cria um ambiente em que o risco não é imediatamente visível, mas está permanentemente presente.
A sinalização aparece como um dos elementos mais problemáticos nos trechos urbanos críticos. Em muitos segmentos, ela é classificada como regular ou ruim, mesmo quando o estado geral da rodovia recebe avaliação favorável. Em áreas urbanas, onde há maior diversidade de usuários e maior necessidade de orientação clara, essa deficiência assume papel central na ocorrência dos sinistros. A sinalização é o principal meio de comunicação entre a infraestrutura e o usuário da via, especialmente em ambientes complexos. Quando essa comunicação é falha, o sistema deixa de fornecer informações essenciais para a tomada de decisão segura.
A geometria da via também apresenta limitações importantes. O estudo evidencia que nenhum dos trechos urbanos críticos analisados alcançou classificação ótima nesse aspecto. Curvas, acessos, acostamentos e outros elementos geométricos muitas vezes não são compatíveis com o uso urbano intenso a que esses segmentos estão submetidos. Mesmo quando a geometria é considerada razoável sob critérios técnicos tradicionais, ela pode se mostrar inadequada diante da mistura de fluxos e da presença constante de pedestres e veículos de diferentes características. Essa inadequação contribui para a criação de situações em que o erro humano se torna mais provável.
O aspecto mais revelador da análise desagregada é que apenas uma pequena parcela dos trechos críticos apresenta pavimento, geometria e sinalização simultaneamente em condições adequadas. A grande maioria dos segmentos possui ao menos um desses elementos em condição regular, ruim ou péssima. Isso indica que o risco não decorre de um único fator isolado, mas da incoerência do conjunto. Uma rodovia pode ter pavimento de boa qualidade, mas se a sinalização não orienta corretamente ou se a geometria não responde às demandas do ambiente urbano, o sistema como um todo falha em proteger seus usuários.
Essa falha silenciosa explica por que os sinistros graves se repetem nos mesmos trechos ao longo do tempo. Não se trata de um problema episódico, associado a uma condição momentânea da via, mas de uma característica estrutural que permanece ativa ano após ano. A previsibilidade do sinistro emerge justamente dessa permanência. Quando os mesmos fatores de risco continuam presentes, o sistema cria as condições para que novos eventos ocorram, mesmo sem mudanças aparentes na infraestrutura.
Nos trechos urbanos, essa previsibilidade é ainda mais acentuada pela intensidade do uso e pela diversidade de interações. A rodovia passa a operar em um ambiente para o qual não foi originalmente concebida, sem que seus elementos tenham sido plenamente adaptados. O resultado é um espaço em que a leitura da via se torna confusa, as expectativas dos usuários não são atendidas de forma consistente e as consequências dos erros tendem a ser graves. O sinistro, nesse contexto, não surge como surpresa, mas como manifestação de um sistema que falha de maneira contínua e pouco perceptível.
Ao evidenciar essas falhas silenciosas, o estudo de Carmo e Raia Jr. aprofunda a compreensão sobre o que torna um trecho crítico de verdade. A insegurança não está apenas nas más condições visíveis, mas na soma de pequenas inadequações que, combinadas, produzem um ambiente estruturalmente inseguro. Reconhecer essa dinâmica é fundamental para compreender que a segurança viária depende da coerência do sistema como um todo, e não apenas da qualidade isolada de seus componentes.
O peso do contexto urbano na gravidade dos sinistros
A análise da infraestrutura viária, por si só, não é suficiente para explicar a concentração de sinistros graves em determinados trechos das rodovias federais. O estudo de Carmo e Raia Jr. evidencia que o contexto urbano em que esses trechos estão inseridos exerce influência decisiva sobre a gravidade dos eventos registrados. Ao incorporar variáveis relacionadas às características das cidades atravessadas pelas rodovias, os autores demonstram que a criticidade dos trechos está fortemente associada à complexidade do ambiente urbano que os envolve.
Os trechos urbanos mais críticos identificados no estudo localizam-se, majoritariamente, em áreas de influência de metrópoles e capitais regionais. Esses centros urbanos concentram grande volume de deslocamentos diários, tanto de origem local quanto de passagem, gerados por atividades econômicas, educacionais e administrativas. Nesse cenário, a rodovia deixa de ser apenas um eixo de ligação interurbana e passa a desempenhar funções múltiplas, atendendo simultaneamente a fluxos urbanos e rodoviários. Essa sobreposição de funções cria um ambiente operacional mais complexo e mais exigente do ponto de vista da segurança viária.
A classificação dos centros urbanos utilizada no estudo permite compreender essa dinâmica de forma mais clara. Cidades com maior área de influência exercem papel central na organização do território e atraem deslocamentos de municípios vizinhos. Quando uma rodovia federal atravessa esse tipo de centro urbano, ela passa a concentrar acessos, travessias e interações intensas com o sistema viário local. A presença constante de pedestres, motociclistas e veículos de diferentes portes amplia os pontos de conflito e aumenta a exposição ao risco. Nesses contextos, qualquer inadequação da infraestrutura tende a produzir efeitos mais graves.
Outro aspecto relevante destacado pelo estudo é a associação entre maior número de vítimas e centros urbanos com Índice de Desenvolvimento Humano Municipal elevado. Esse resultado pode parecer contraintuitivo à primeira vista, mas revela a importância de se considerar a intensidade do uso da via. Cidades com maior nível de desenvolvimento costumam apresentar maior frota de veículos, maior diversidade de atividades e maior volume de deslocamentos. A rodovia inserida nesse ambiente passa a operar sob pressão constante, muitas vezes sem adaptações compatíveis com essa demanda ampliada. O risco, nesse caso, não está associado à precariedade urbana, mas à intensidade e à complexidade do uso do espaço viário.
A combinação entre infraestrutura concebida para um contexto rural e a dinâmica urbana contemporânea cria um cenário propício à ocorrência de sinistros graves. Mesmo quando a rodovia apresenta pavimento em boas condições e estado geral satisfatório, ela pode falhar ao atravessar áreas densamente urbanizadas sem dispositivos adequados para lidar com travessias frequentes, acessos laterais e múltiplos modos de transporte. Essa inadequação estrutural se manifesta na repetição de sinistros nos mesmos trechos ao longo do tempo, reforçando a ideia de previsibilidade do evento.
Os dados mostram que o contexto urbano potencializa os efeitos das falhas da infraestrutura. Uma sinalização deficiente ou uma geometria pouco coerente pode ter impacto limitado em um trecho rural com baixo volume de tráfego, mas assume proporções muito mais graves quando inserida em um ambiente urbano denso. Nesses casos, a margem para erro é reduzida e as consequências tendem a ser mais severas. O sistema viário, ao não reconhecer essa diferença de contexto, expõe seus usuários a riscos que poderiam ser mitigados com adaptações adequadas.
A previsibilidade do sinistro emerge, portanto, da interação entre infraestrutura e ambiente urbano. Não se trata apenas de identificar onde os sinistros ocorrem, mas de compreender por que eles se repetem nos mesmos espaços. Quando uma rodovia atravessa um centro urbano complexo sem ajustes compatíveis com essa realidade, o sistema cria condições permanentes para a ocorrência de eventos graves. O erro humano, nesse cenário, não é uma exceção inesperada, mas uma resposta previsível a um ambiente que não oferece proteção suficiente.
Ao evidenciar o peso do contexto urbano na gravidade dos sinistros, o estudo amplia a compreensão sobre o que torna um trecho crítico de verdade. A criticidade não está apenas na condição física da via, mas na incapacidade do sistema de reconhecer e responder às exigências do território que atravessa. Essa constatação reforça a necessidade de tratar os trechos urbanos como espaços singulares, onde a segurança viária depende da integração entre infraestrutura adequada e compreensão profunda da dinâmica urbana que a envolve.
O trecho crítico como expressão da falha do sistema
Ao reunir a análise da infraestrutura viária com as características do contexto urbano, o estudo de Carmo e Raia Jr. permite compreender o trecho crítico como algo que vai além de um local com alta concentração de sinistros. Ele passa a ser entendido como a manifestação de uma falha sistêmica, construída ao longo do tempo pela interação entre elementos físicos da rodovia e o ambiente urbano que a envolve. Essa perspectiva é fundamental para explicar por que os sinistros graves se repetem nos mesmos segmentos, mesmo quando não há mudanças aparentes na via.
A utilização da Razão de Prevalência como ferramenta analítica reforça essa leitura. Ao comparar diferentes condições de infraestrutura e características urbanas, os autores demonstram que certos fatores estão consistentemente associados a maior número de vítimas. Trechos com condições regulares de infraestrutura apresentaram, em diversos casos, maior associação com vítimas graves e fatais do que trechos classificados como ruins ou péssimos. Esse resultado é particularmente revelador, pois indica que o risco não cresce de forma linear com a degradação visível da via. Pelo contrário, ele pode se intensificar em ambientes que aparentam oferecer condições razoáveis de circulação.
Essa constatação ajuda a explicar por que o sinistro, nesses trechos, é previsível. Quando a infraestrutura transmite sinais ambíguos aos usuários, o sistema passa a induzir comportamentos que aumentam a exposição ao risco. Uma via com pavimento em boas condições, mas com sinalização inadequada ou geometria pouco coerente com o uso urbano, cria expectativas de fluidez que não se sustentam diante da complexidade do ambiente. O usuário ajusta seu comportamento com base nessas expectativas e, ao se deparar com conflitos não claramente indicados, fica mais vulnerável a situações de risco elevado.
O trecho crítico, nesse sentido, não é fruto de uma sucessão de erros individuais desconectados. Ele resulta de um arranjo estrutural que falha em antecipar e mitigar esses erros. O estudo mostra que a repetição de sinistros graves nos mesmos segmentos não ocorre por acaso. Ela decorre da permanência de condições que não foram corrigidas ao longo do tempo, seja na infraestrutura física, seja na forma como a rodovia se integra ao tecido urbano. Essa permanência transforma o risco em característica do local.
Outro aspecto importante dessa falha sistêmica é a dissociação entre os instrumentos tradicionais de avaliação da rodovia e os resultados observados em termos de segurança viária. A classificação do estado geral, amplamente utilizada para orientar investimentos e intervenções, mostrou-se insuficiente para identificar os trechos mais perigosos do ponto de vista da gravidade dos sinistros. Ao não incorporar diretamente a análise da severidade das ocorrências, esse tipo de avaliação pode reforçar a manutenção de condições que aparentam ser aceitáveis, mas que continuam produzindo vítimas graves e fatais.
Nos trechos urbanos, essa falha do sistema é amplificada pela intensidade do uso e pela diversidade de usuários. A rodovia passa a concentrar funções que não foram plenamente consideradas em seu projeto original, como a circulação local, as travessias frequentes e o acesso direto a atividades urbanas. Quando esses novos usos não são acompanhados por adaptações adequadas na infraestrutura, o sistema deixa de oferecer margens de segurança compatíveis com a realidade. O sinistro, então, surge como resposta previsível a um ambiente que não protege o erro humano.
A previsibilidade do sinistro é um dos pontos centrais evidenciados pelo estudo. Ao identificar padrões de concentração e associação entre variáveis, os autores mostram que os eventos graves seguem uma lógica que pode ser compreendida e antecipada. Essa lógica não depende da identificação de um comportamento específico, mas da leitura do conjunto de condições que tornam o trecho estruturalmente inseguro. Onde essas condições se mantêm, o risco persiste.
Compreender o trecho crítico como expressão da falha do sistema permite avançar na discussão sobre segurança viária de forma mais consistente. Em vez de atribuir a gravidade dos sinistros a fatores isolados ou circunstanciais, o estudo aponta para a necessidade de enxergar o problema como resultado de decisões acumuladas sobre projeto, manutenção e integração da rodovia ao espaço urbano. Essa visão reforça a ideia de que a segurança viária depende da capacidade do sistema de reconhecer suas próprias limitações e de se adaptar às condições reais de uso, evitando que o erro humano continue a produzir consequências tão severas nos mesmos lugares ao longo do tempo.
Implicações para a gestão da segurança viária nos trechos urbanos
Os resultados apresentados por Carmo e Raia Jr. conduzem a uma reflexão direta sobre a forma como a segurança viária tem sido tradicionalmente gerida nas rodovias federais inseridas em áreas urbanas. Ao demonstrar que a gravidade dos sinistros se concentra de maneira persistente em determinados trechos, independentemente de melhorias pontuais ou da classificação geral da infraestrutura, o estudo evidencia que a gestão baseada apenas em indicadores agregados é insuficiente para enfrentar o problema. A segurança viária, nesses contextos, exige uma abordagem que reconheça o trecho urbano como unidade específica de análise e intervenção.
A identificação de trechos críticos a partir da concentração de vítimas graves e fatais revela que o risco pode ser mapeado de forma objetiva e antecipada. Quando um número reduzido de segmentos responde por parcela significativa das vítimas, torna-se possível direcionar esforços de forma mais eficiente. Essa constatação tem implicações diretas para o planejamento de ações, pois sugere que a gestão da segurança viária deve priorizar locais onde a falha do sistema já se manifesta de forma recorrente. A previsibilidade do sinistro, evidenciada pela repetição de eventos nos mesmos trechos, oferece uma base sólida para intervenções preventivas.
Outro ponto central do estudo é a limitação das avaliações tradicionais de estado geral da rodovia como critério para tomada de decisão. A constatação de que muitos trechos críticos são classificados como bons ou ótimos indica que esse tipo de avaliação não capta adequadamente os fatores que influenciam a gravidade dos sinistros. Para a gestão da segurança viária, isso significa que decisões baseadas exclusivamente nesse indicador podem perpetuar situações de risco. A análise desagregada de pavimento, geometria e sinalização mostra-se mais eficaz para identificar fragilidades que não aparecem em avaliações globais.
A integração entre infraestrutura viária e contexto urbano também se revela fundamental para a gestão. O estudo demonstra que trechos inseridos em centros urbanos de maior influência concentram maior número de vítimas, o que reforça a necessidade de considerar a dinâmica urbana no planejamento das intervenções. Rodovias que atravessam metrópoles e capitais regionais operam sob condições distintas daquelas localizadas em áreas menos densas. Ignorar essa diferença significa aplicar soluções genéricas a problemas que exigem respostas específicas. A gestão da segurança viária, nesse sentido, precisa reconhecer que o ambiente urbano amplia a complexidade do sistema e exige maior coerência entre seus elementos.
A previsibilidade do sinistro, evidenciada ao longo do estudo, reforça a ideia de que a atuação do poder público não deve ser apenas reativa. A repetição de eventos graves nos mesmos trechos indica que o sistema falha de maneira contínua e identificável. Quando essas falhas são conhecidas e permanecem sem correção, o sinistro deixa de ser um evento inesperado e passa a ser consequência de uma decisão implícita de manter as condições existentes. A gestão da segurança viária, portanto, deve assumir caráter preventivo, orientado pela identificação antecipada dos fatores que tornam o trecho estruturalmente inseguro.
Nesse contexto, a utilização de dados de sinistros com foco na gravidade das vítimas ganha relevância estratégica. Ao priorizar a análise de vítimas graves e fatais, o estudo desloca a atenção para os impactos mais severos da falha do sistema. Essa escolha metodológica oferece subsídios para uma gestão que busca reduzir danos irreversíveis, e não apenas o número total de ocorrências. A compreensão de que nem todos os sinistros têm o mesmo peso em termos de consequências humanas é essencial para orientar políticas públicas mais eficazes.
A gestão da segurança viária nos trechos urbanos, à luz dos achados do estudo, exige também uma visão integrada das intervenções. Melhorias isoladas, como a recuperação do pavimento, podem não produzir os efeitos esperados se não forem acompanhadas por ajustes na geometria e na sinalização compatíveis com o contexto urbano. A coerência do conjunto se mostra mais determinante para a redução da gravidade dos sinistros do que a excelência pontual de um único elemento da infraestrutura. Essa constatação reforça a necessidade de planejamento sistêmico, capaz de alinhar os diferentes componentes da via às condições reais de uso.
Ao evidenciar essas implicações, o estudo de Carmo e Raia Jr. contribui para redefinir o papel da gestão da segurança viária em rodovias urbanas. A partir de seus achados, torna-se claro que gerir segurança viária é reconhecer padrões, antecipar falhas e intervir de forma consistente nos trechos onde o sistema já demonstra, de maneira reiterada, sua incapacidade de proteger a vida.
O que torna um trecho crítico de verdade
Ao longo da análise desenvolvida por Carmo e Raia Jr., torna-se possível compreender com maior clareza o que diferencia um trecho crítico de um local onde um sinistro ocorreu de forma isolada. A criticidade não está associada ao acaso nem a episódios pontuais, mas à repetição sistemática de sinistros graves em segmentos específicos da rodovia. Essa repetição, observada ao longo de vários anos, revela padrões consistentes que permitem identificar falhas estruturais do sistema viário, especialmente quando esses trechos estão inseridos em áreas urbanas complexas.
Os dados mostram que uma parcela muito reduzida dos trechos urbanos concentra uma fração expressiva das vítimas graves e fatais. Essa concentração não se explica apenas pelo volume de tráfego ou pela presença de usuários mais vulneráveis, mas pela combinação entre infraestrutura inadequada e contexto urbano intenso. Quando pavimento, geometria e sinalização não se articulam de forma coerente com a dinâmica do espaço urbano, o risco deixa de ser eventual e passa a ser permanente. O trecho crítico, nesse sentido, é aquele em que o sistema cria condições contínuas para que o erro humano produza consequências severas.
Outro elemento central para essa compreensão é a dissociação entre a avaliação tradicional da rodovia e os resultados observados em termos de segurança viária. A constatação de que muitos trechos críticos são classificados como bons ou ótimos no estado geral evidencia que esse tipo de indicador não é capaz de revelar, por si só, o nível de risco presente. A boa qualidade do pavimento, isoladamente, pode inclusive contribuir para aumentar a gravidade dos sinistros quando não é acompanhada por sinalização clara e geometria compatível com o uso urbano. Assim, o trecho crítico não é necessariamente aquele que apresenta sinais visíveis de degradação, mas aquele que falha em oferecer um ambiente seguro diante das condições reais de circulação.
O contexto urbano aparece como fator decisivo nessa equação. Rodovias que atravessam metrópoles e capitais regionais assumem funções múltiplas e passam a concentrar conflitos típicos do tráfego urbano. A infraestrutura, concebida originalmente para outro tipo de uso, torna-se insuficiente para lidar com a diversidade de fluxos e interações. Quando essa inadequação se mantém ao longo do tempo, os sinistros graves passam a ocorrer de forma previsível nos mesmos trechos. A previsibilidade do sinistro é, portanto, um dos principais indicadores da criticidade do segmento.
Essa previsibilidade reforça a ideia de que o trecho crítico é expressão de uma falha do sistema, e não de uma sucessão de comportamentos individuais inadequados. O estudo mostra que os sinistros graves se repetem onde as condições estruturais permanecem inalteradas, mesmo quando já é possível identificar associações claras entre infraestrutura, contexto urbano e número de vítimas. O sistema, ao não corrigir essas falhas conhecidas, mantém ativos os fatores que levam à ocorrência dos eventos mais severos.
Compreender o que torna um trecho crítico de verdade implica reconhecer que a segurança viária depende da coerência do conjunto. Não basta melhorar um elemento isolado da infraestrutura ou adotar avaliações genéricas de qualidade da rodovia. É necessário observar como os diferentes componentes se combinam e como essa combinação responde às exigências do ambiente urbano. Onde essa resposta é inadequada, o risco se acumula e o sinistro deixa de ser surpresa.
O estudo de Carmo e Raia Jr. oferece uma base empírica sólida para essa compreensão ao demonstrar que os trechos críticos podem ser identificados, analisados e compreendidos a partir de dados objetivos. A criticidade emerge da concentração de vítimas, da persistência dos eventos ao longo do tempo e da associação entre infraestrutura inconsistente e contexto urbano complexo. Esses elementos, quando analisados em conjunto, permitem afirmar que o trecho crítico é aquele em que o sistema falha repetidamente em proteger a vida.
Assim, o que torna um trecho crítico de verdade não é apenas o número de sinistros registrados, mas a presença contínua de condições que tornam esses sinistros previsíveis e graves. Reconhecer essa realidade é fundamental para avançar na gestão da segurança viária, deslocando o foco do evento isolado para o funcionamento do sistema como um todo. É nesse deslocamento que se encontra a chave para compreender e enfrentar a gravidade dos sinistros nas rodovias federais inseridas em áreas urbanas.
Autor
Jeferson Moraes, Graduado em Engenharia Civil pela UEFS, e pós-graduado em Engenharia de Tráfego e Segurança Viária pela Faculdade Focus, pós-graduado em Avaliação e Perícia de Imóveis pela Faculdade Líbano, pós-graduando em Engenharia Diagnóstica: Patologia, Desempenho e Perícias na Construção Civil pela Faculdade Unyleia
Referências
CARMO, Felipe de Oliveira; RAIA JUNIOR, Archimedes Azevedo. Segurança viária em rodovias inseridas em áreas urbanas. Revista Transportes, v. 30, n. 4, 2022.


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