Este artigo convida o leitor a repensar a velocidade no trânsito para além da ideia de escolha individual. Ao longo do texto, é apresentada a compreensão de que a velocidade praticada nas vias é fortemente influenciada pelo desenho viário e pelas mensagens silenciosas transmitidas pelo ambiente construído. A partir de estudos acadêmicos e evidências de campo, o artigo demonstra como elementos como geometria da estrada, largura das faixas, alinhamento, visibilidade e organização visual moldam o comportamento dos motoristas de forma intuitiva e, muitas vezes, inconsciente.
O leitor encontrará uma explicação clara sobre o conceito de design viário e sobre como surgem as chamadas escolhas invisíveis, decisões tomadas automaticamente a partir da percepção visual e da leitura espacial da via. O texto explora ainda o papel das vias autoexplicativas, mostrando como projetos coerentes podem orientar velocidades mais seguras sem depender exclusivamente de sinalização intensa ou fiscalização constante.
Além da base teórica, o artigo apresenta estudos de campo e casos práticos que comprovam o impacto real do desenho viário nas velocidades operacionais, bem como uma reflexão sobre o futuro do design viário, incluindo o uso de tecnologias e infraestrutura adaptativa. Ao final, reforça-se a ideia de que projetar para a segurança exige ir além do desenho técnico, reconhecendo a engenharia como agente ativo na redução de riscos, na preservação de vidas e na construção de sistemas viários mais humanos e seguros.
Introdução: A velocidade que nos guia
Quando se fala em velocidade no trânsito, a explicação quase sempre recai sobre o comportamento individual do condutor. Excesso de pressa, imprudência ou desatenção costumam ser as justificativas mais comuns. Pouco se discute, porém, o papel do ambiente onde essa decisão acontece. A velocidade não nasce apenas do pé no acelerador, mas do contexto que incentiva ou desencoraja o motorista a acelerar.
O desenho viário se comunica de forma constante, mesmo quando não é percebido conscientemente. A largura das faixas, a continuidade do traçado, a presença ou ausência de elementos laterais, o campo visual disponível e a leitura espacial da via transmitem mensagens sobre qual velocidade parece adequada. Essas informações são absorvidas de maneira automática. O condutor não responde apenas ao limite indicado em uma placa, mas à sensação que a via transmite.
Por essa razão, tratar a velocidade apenas como escolha individual é uma simplificação excessiva. Decisões técnicas tomadas muito antes da via entrar em operação moldam o comportamento diário de quem a utiliza. Vias largas, retas e visualmente homogêneas tendem a induzir velocidades mais altas. Ambientes mais estreitos, com variações visuais e elementos de moderação, estimulam maior cautela. São escolhas incorporadas ao desenho que orientam o comportamento de forma quase imperceptível.
Compreender a velocidade como resultado do desenho viário desloca o debate da culpa para a responsabilidade técnica. O ambiente construído não é neutro e a engenharia influencia diretamente a forma como as pessoas se deslocam. Muitas vezes, a velocidade que nos guia não é fruto de uma decisão consciente, mas da mensagem silenciosa transmitida pelo projeto da via.
O que é o design viário e como ele afeta a velocidade
Design viário é o conjunto de decisões técnicas que definem a forma física e funcional de uma via. Ele envolve a geometria do traçado, a largura das faixas, o alinhamento horizontal e vertical, a visibilidade, os elementos laterais, as interseções e também a forma como a sinalização é integrada a esse conjunto. Mais do que atender a parâmetros normativos, o design viário constrói a experiência de quem utiliza a via e, com isso, influencia diretamente o comportamento dos usuários.
A geometria da via exerce um papel central na escolha da velocidade. Curvas mais fechadas, transições perceptíveis e limitações visuais tendem a induzir redução de velocidade, pois exigem maior atenção e aumentam a percepção de risco. Em contrapartida, vias largas, longos trechos retilíneos e campos visuais amplos transmitem sensação de conforto e fluidez, estimulando velocidades mais elevadas, mesmo quando o limite regulamentado é baixo. O motorista reage ao que percebe, não apenas ao que está prescrito.
A sinalização, por sua vez, atua como complemento do desenho, mas raramente consegue compensar um projeto que comunica mensagens contraditórias. Quando o desenho sugere velocidade e a sinalização tenta impor restrição, o conflito é evidente. Nesses casos, a tendência é que o comportamento seja guiado pela leitura espacial da via, e não pela placa. Isso explica por que vias tecnicamente bem sinalizadas continuam apresentando velocidades operacionais acima do desejado.
É nesse contexto que surgem os conceitos de Self-Explaining Roads, ou vias autoexplicativas. A ideia central é que a própria configuração da via deve deixar claro ao usuário como ela deve ser utilizada e qual comportamento é esperado. Estudos conduzidos por pesquisadores como Theeuwes e Snell demonstram que motoristas ajustam naturalmente sua velocidade quando o ambiente viário é coerente, legível e compatível com a função da via. A via passa a orientar o comportamento sem depender exclusivamente de fiscalização ou de mensagens explícitas.
O princípio das vias autoexplicativas não propõe eliminar a sinalização, mas integrá-la a um desenho que faça sentido do ponto de vista perceptivo. A geometria, os elementos visuais e o contexto urbano ou rural devem comunicar, de forma consistente, se aquele espaço é de passagem rápida, de convivência, de transição ou de conflito. Quando essa comunicação é clara, a escolha da velocidade se torna quase automática.
Pesquisas sobre geometria viária reforçam essa lógica ao demonstrar que pequenas variações no traçado, na largura das faixas ou na visibilidade já são suficientes para alterar significativamente a velocidade praticada. Esses estudos mostram que o motorista responde ao ambiente antes de responder à regra. Assim, o design viário deixa de ser apenas uma solução técnica e passa a ser uma ferramenta ativa de gestão da velocidade e da segurança.
Compreender o design viário dessa forma é reconhecer que a velocidade não é apenas regulada, ela é construída. Cada decisão geométrica incorpora uma mensagem silenciosa que orienta o comportamento dos usuários. E é justamente nesse nível, muitas vezes invisível, que a engenharia exerce sua influência mais profunda sobre a segurança viária.
As escolhas invisíveis: como o design molda o comportamento sem que percebamos
Grande parte das decisões tomadas no trânsito acontece sem reflexão consciente. O motorista acredita estar no controle total de suas escolhas, mas, na prática, reage continuamente a estímulos do ambiente. Essas reações automáticas são o que podemos chamar de escolhas invisíveis. Elas não são fruto de uma decisão deliberada, mas de interpretações rápidas e intuitivas do espaço viário.
O design da via exerce papel decisivo nesse processo. Elementos como alinhamento, continuidade do traçado, largura das faixas, proximidade de obstáculos laterais, textura do pavimento e organização visual do entorno são processados pelo cérebro em frações de segundo. A partir dessa leitura, o motorista ajusta sua velocidade de forma quase instintiva. Não há um cálculo consciente, mas uma resposta baseada na percepção de conforto, risco ou complexidade do ambiente.
Estudos sobre percepção visual demonstram que o ser humano utiliza pistas visuais para avaliar segurança e esforço. Ambientes visualmente simples, com longos campos de visão e poucos elementos de referência, tendem a ser interpretados como seguros, incentivando velocidades mais elevadas. Já espaços mais complexos, com variação de estímulos, maior proximidade de elementos laterais e mudanças no traçado, aumentam a atenção e induzem comportamentos mais cautelosos. A velocidade, nesse contexto, é uma consequência direta da leitura visual da via.
Pesquisas conduzidas por autores como Theeuwes e Quimby reforçam que a escolha da velocidade raramente está ligada apenas ao limite regulamentado. O motorista responde principalmente à sensação transmitida pelo ambiente. Quando a via parece tolerar velocidades mais altas, essa será a velocidade praticada, independentemente da sinalização. A cognição visual atua como um filtro que traduz o desenho da via em comportamento.
Os conceitos de Self-Explaining Roads aprofundam essa compreensão ao mostrar que o comportamento pode ser guiado de forma intuitiva quando o desenho da via é coerente com sua função. Estudos de Snell e outros pesquisadores indicam que, quando o ambiente viário comunica claramente o tipo de uso esperado, os motoristas ajustam sua velocidade sem esforço consciente. A via ensina, orienta e corrige, muitas vezes de forma mais eficaz do que placas ou campanhas educativas.
A geometria da estrada e o comportamento de velocidade
Entre todos os elementos do design viário, a geometria da estrada é um dos que mais influenciam diretamente o comportamento dos motoristas. Curvas, larguras de faixa, alinhamentos e transições não são apenas soluções técnicas para vencer o terreno ou acomodar o tráfego. Eles funcionam como sinais permanentes que orientam, de forma contínua, a velocidade praticada pelos usuários.
As curvas exercem papel central nesse processo. Estudos mostram que quanto menor o raio da curva e menor a visibilidade associada, maior é a tendência de redução da velocidade. Isso ocorre porque o motorista percebe a necessidade de maior esforço de controle e antecipa riscos potenciais. Pesquisas como as de Goyani demonstram que a geometria das curvas influencia diretamente a velocidade de operação, muitas vezes de forma mais efetiva do que a sinalização isolada. A curva comunica limite antes mesmo que qualquer placa seja lida.
A largura das faixas também exerce forte influência sobre a velocidade. Vias com faixas amplas transmitem sensação de conforto e segurança, levando os motoristas a trafegar mais rápido. Em contrapartida, faixas mais estreitas aumentam a percepção de proximidade com outros veículos e com os elementos laterais, induzindo naturalmente a redução da velocidade. Estudos analisados por Coropulis indicam que pequenas variações na largura das faixas já são suficientes para provocar mudanças significativas no comportamento dos condutores.
O alinhamento horizontal e vertical da via completa esse conjunto de estímulos. Trechos longos e retilíneos favorecem velocidades mais elevadas, enquanto sequências de curvas, mudanças de greide e variações no traçado quebram a monotonia visual e reduzem a velocidade média. A geometria, nesse sentido, atua como um regulador silencioso do comportamento, modulando a forma como o motorista percebe o espaço e antecipa suas ações.
Pesquisas que analisam a relação entre geometria da via e velocidade observada, como os estudos conduzidos na região de Canterbury, reforçam essa lógica. Os dados mostram que as velocidades praticadas tendem a se ajustar ao padrão geométrico da estrada, independentemente dos limites estabelecidos. Quando o desenho é permissivo, a velocidade sobe. Quando o desenho impõe leitura mais cautelosa, a velocidade cai.
A importância de ajustar a geometria da estrada está diretamente ligada à redução do risco de sinistros. Vias cuja geometria não é compatível com a função que exercem criam um descompasso entre o comportamento esperado e o comportamento induzido. Esse desalinhamento aumenta a probabilidade de erros, especialmente em situações inesperadas. Ao contrário, quando a geometria é pensada para comunicar claramente o nível de atenção e a velocidade adequada, o sistema se torna mais tolerante às falhas humanas.
Assim, tratar a geometria viária apenas como requisito normativo é limitar seu potencial. Ela é, na prática, uma ferramenta ativa de gestão da velocidade e de segurança. Cada curva, cada faixa e cada transição incorporam decisões que se refletem diretamente no comportamento dos usuários e nos resultados de segurança ao longo do tempo.
Quando o projeto é um guia silencioso: o papel das vias autoexplicativas
O conceito de vias autoexplicativas parte de uma ideia simples, mas profundamente eficaz: a própria via deve indicar ao usuário como ela deve ser utilizada. Em vez de depender exclusivamente de regras explícitas, placas ou fiscalização constante, o desenho viário passa a comunicar, de forma intuitiva, qual comportamento é esperado. A via deixa de ser apenas um suporte físico e se transforma em um guia silencioso para o motorista.
Nas vias autoexplicativas, a coerência entre função, geometria e ambiente é o elemento central. O motorista, ao entrar nesse espaço, reconhece imediatamente se está em uma via de passagem rápida, em uma área de transição ou em um ambiente que exige maior cautela. Essa compreensão não ocorre por leitura racional, mas por percepção visual e espacial. Estudos conduzidos por autores como Theeuwes e Quimby demonstram que os condutores ajustam naturalmente sua velocidade quando o ambiente viário é legível e compatível com o tipo de uso esperado.
A comunicação visual intuitiva é o principal mecanismo dessas vias. Elementos como variações de largura, mudanças no alinhamento, presença de elementos laterais, tratamento do entorno e organização do espaço urbano transmitem mensagens claras sobre o nível de atenção exigido. Quando esses elementos são bem articulados, o motorista reduz a necessidade de esforço cognitivo para interpretar regras e passa a responder de forma automática ao ambiente.
Essa abordagem se mostra particularmente eficiente quando comparada aos métodos tradicionais de controle da velocidade. Sinalização intensa e fiscalização eletrônica atuam de forma pontual e reativa. Elas tentam corrigir um comportamento que já foi induzido por um desenho permissivo. Em muitos casos, geram apenas obediência momentânea, limitada ao campo de visão da placa ou do equipamento de fiscalização. Já as vias autoexplicativas influenciam o comportamento ao longo de todo o percurso, criando padrões de condução mais estáveis e previsíveis.
Estudos analisados por Edquist e colaboradores reforçam a importância da sinalização indireta nesse processo. Quando o ambiente viário comunica de forma consistente, a dependência de placas diminui e o respeito à velocidade adequada se torna mais espontâneo. A sinalização direta passa a ter papel complementar, reforçando uma mensagem que o desenho já transmitiu, em vez de tentar contradizê-la.
O resultado desse tipo de abordagem é uma melhoria contínua da segurança viária. Ao reduzir a necessidade de correção externa e alinhar o comportamento dos usuários ao desempenho esperado da via, as vias autoexplicativas tornam o sistema mais robusto e tolerante ao erro humano. O projeto assume seu papel educativo e preventivo, orientando o motorista de forma constante e silenciosa.
Quando o desenho da via é coerente, a fiscalização deixa de ser o principal instrumento de controle e passa a ser um apoio. A segurança não depende apenas de vigilância, mas da capacidade da engenharia de construir ambientes que conduzam naturalmente a escolhas mais seguras. É nesse ponto que o projeto deixa de ser apenas técnica e se torna linguagem.
Velocidade e segurança viária: como o design reduz os riscos
A relação entre velocidade e segurança viária é direta, mas não simples. Pequenos aumentos na velocidade média podem gerar aumentos desproporcionais na gravidade dos sinistros, enquanto reduções modestas são capazes de produzir ganhos significativos em termos de sobrevivência e gravidade das lesões. Ainda assim, o debate sobre velocidade costuma se concentrar no comportamento individual ou na fiscalização, deixando em segundo plano o papel do desenho viário como fator estruturante desse risco.
O design da via atua sobre a velocidade de forma contínua e antecipada. Ao influenciar a forma como o motorista percebe o ambiente, ele orienta escolhas antes mesmo que situações críticas ocorram. Estudos analisados por Edquist e colaboradores demonstram que a velocidade praticada está fortemente associada às características físicas e visuais da via, e que ambientes coerentes tendem a apresentar menores variações de velocidade e menos comportamentos extremos. Essa previsibilidade é um dos principais fatores de redução de risco.
Quando o desenho induz velocidades compatíveis com a função da via, o sistema se torna mais tolerante ao erro humano. Menores velocidades ampliam o campo de reação, reduzem a distância de frenagem e diminuem a severidade das consequências em caso de colisão. O design, nesse sentido, não elimina o erro, mas reduz seus efeitos. Essa lógica é central em abordagens modernas de segurança viária, que reconhecem as limitações humanas e buscam acomodá-las no projeto.
Estratégias de redução de velocidade baseadas no desenho viário têm se mostrado mais eficientes e duradouras do que intervenções exclusivamente punitivas. Pesquisas discutidas por Coropulis indicam que ajustes geométricos, variações visuais e reorganização do espaço viário produzem reduções consistentes de velocidade sem gerar rejeição por parte dos usuários. Ao contrário da fiscalização pontual, essas estratégias atuam o tempo todo, moldando o comportamento de forma progressiva.
Outro aspecto relevante é a redução da variabilidade de velocidades. Vias que induzem velocidades mais homogêneas apresentam menor risco de conflitos, pois diminuem diferenças bruscas entre veículos. O desenho viário, ao orientar o comportamento coletivo, contribui para um fluxo mais previsível e seguro, especialmente em ambientes urbanos ou em trechos de transição.
Ao compreender a velocidade como variável de projeto, a segurança viária deixa de depender apenas da correção do comportamento e passa a ser construída de forma sistêmica. O design viário assume papel ativo na gestão do risco, guiando escolhas mais seguras antes que o erro se transforme em sinistro. Nesse contexto, reduzir riscos não é apenas limitar velocidades, mas criar ambientes que conduzam naturalmente a decisões compatíveis com a segurança.
Casos práticos e estudos de campo: o impacto real do design nas velocidades operacionais
A influência do design viário sobre a velocidade deixa de ser apenas um conceito teórico quando observada em estudos de campo. Diversas pesquisas realizadas em ambientes reais mostram que mudanças relativamente simples no desenho das vias produzem efeitos mensuráveis e consistentes sobre as velocidades operacionais, muitas vezes sem a necessidade de reforço por fiscalização intensiva.
Estudos clássicos conduzidos por Maycock e colaboradores demonstraram que a velocidade praticada pelos motoristas tende a se ajustar rapidamente às características físicas da via. Em rodovias onde houve alteração na geometria, como redução da largura das faixas, introdução de transições mais perceptíveis ou reorganização do espaço lateral, observou-se queda significativa nas velocidades médias, acompanhada por redução da variabilidade entre os veículos. Esses resultados reforçam a ideia de que o comportamento responde mais ao ambiente do que às regras isoladas.
Pesquisas mais recentes, como as analisadas por Vertlberg, confirmam esse padrão em diferentes contextos. Em trechos onde o desenho foi ajustado para aumentar a legibilidade e a percepção de risco, a velocidade de operação se aproximou da velocidade desejada pelos gestores, mesmo sem alteração nos limites regulamentados. A coerência entre função da via e desenho mostrou-se determinante para estabilizar o comportamento dos condutores.
Casos práticos em ambientes urbanos também evidenciam o potencial do design como ferramenta de controle da velocidade. Intervenções que reorganizam o espaço viário, como estreitamento visual das pistas, introdução de ilhas centrais, mudanças no alinhamento ou tratamento diferenciado do pavimento, têm produzido reduções consistentes de velocidade. Estudos discutidos por Edquist e outros autores indicam que essas medidas não apenas reduzem a velocidade média, mas também aumentam a atenção do motorista e diminuem conflitos em áreas sensíveis.
Em rodovias rurais, resultados semelhantes foram observados em trechos de transição, como entradas de áreas urbanizadas ou aproximações de interseções. A introdução de elementos visuais e geométricos que sinalizam mudança de ambiente levou os motoristas a reduzir a velocidade antes do ponto crítico, antecipando o comportamento esperado. Essa antecipação é um dos fatores mais relevantes para a redução de sinistros graves.
O conjunto desses estudos demonstra que o design viário atua como um mecanismo de autorregulação da velocidade. Ao invés de reagir ao excesso depois que ele ocorre, o projeto molda o comportamento de forma preventiva. A velocidade operacional passa a refletir a leitura que o motorista faz do ambiente, e não apenas o limite imposto.
Esses exemplos reforçam uma lição central para a engenharia de tráfego e a segurança viária. Intervenções baseadas no desenho produzem efeitos mais duradouros e menos dependentes de fiscalização contínua. Quando o ambiente comunica corretamente o comportamento esperado, o motorista responde de forma mais previsível e segura. É nesse ponto que o projeto deixa de ser apenas solução técnica e passa a ser instrumento ativo de gestão do risco.
O futuro do design viário: aplicando o conhecimento para vias mais seguras
Os avanços apresentados ao longo deste artigo apontam para uma mudança clara de paradigma no modo como o design viário é concebido. O futuro da segurança viária passa menos pela imposição de regras isoladas e mais pela capacidade da engenharia de criar ambientes que orientem o comportamento de forma natural, coerente e contínua. O conhecimento acumulado sobre percepção, geometria e comportamento oferece hoje bases sólidas para projetos mais eficazes e humanizados.
A aplicação desses aprendizados exige que o design viário deixe de ser visto como solução estática. As vias do futuro tendem a incorporar o conceito de infraestrutura adaptativa, capaz de responder às condições reais de uso. Tecnologias que integram sensores, dados de tráfego, clima e comportamento permitem ajustar limites operacionais, sinalização dinâmica e até configurações geométricas temporárias de acordo com o contexto. Estudos discutidos por Coropulis e Snell indicam que a combinação entre desenho coerente e informação em tempo real amplia significativamente a eficácia das estratégias de gestão da velocidade.
Sistemas de controle de tráfego baseados em dados também abrem novas possibilidades. A leitura contínua de velocidades, volumes e padrões de deslocamento permite identificar trechos onde o desenho não está comunicando corretamente o comportamento esperado. Nesses casos, intervenções podem ser direcionadas e mais precisas, seja por ajustes físicos, seja por reforços visuais temporários. O projeto deixa de ser apenas preventivo e passa a ser também responsivo.
Mesmo com o avanço tecnológico, os princípios das vias autoexplicativas permanecem centrais. Pesquisas de Theeuwes e Vertlberg reforçam que nenhuma tecnologia substitui um desenho coerente. Sistemas inteligentes funcionam melhor quando apoiados por um ambiente viário legível, no qual o motorista compreende intuitivamente o espaço que ocupa. A tecnologia potencializa o projeto, mas não corrige um desenho contraditório.
O futuro do design viário exige, portanto, integração entre engenharia, comportamento e dados. Vias mais seguras não serão resultado apenas de normas mais rígidas ou fiscalização mais intensa, mas da capacidade de transformar conhecimento científico em soluções práticas e sensíveis ao uso real. Ao aplicar os conceitos discutidos, a engenharia assume um papel ativo na redução de riscos e na construção de sistemas viários mais previsíveis e tolerantes ao erro humano.
Mais do que projetar para o tráfego, o desafio é projetar para as pessoas. O design viário do futuro será aquele capaz de guiar escolhas de forma quase invisível, promovendo segurança sem depender exclusivamente de controle externo. É nesse caminho que o conhecimento acumulado sobre velocidade, desenho e comportamento aponta como direção inevitável.
Conclusão: Projetar para a segurança além do desenho
Ao longo deste artigo, fica evidente que a velocidade praticada nas vias não é apenas resultado de escolhas individuais, mas reflexo direto das decisões incorporadas ao desenho viário. A forma da estrada, sua geometria, sua leitura visual e sua coerência funcional moldam o comportamento dos motoristas de maneira contínua e, muitas vezes, imperceptível. O design não apenas organiza o espaço, ele orienta decisões.
Quando o projeto ignora essa influência, transfere toda a responsabilidade para o usuário e aceita o risco como consequência inevitável. Quando reconhece seu papel, torna-se uma ferramenta poderosa de prevenção. A engenharia, ao compreender como as pessoas percebem e utilizam o espaço viário, passa a atuar antes do erro, e não apenas depois do sinistro.
Projetar para a segurança além do desenho significa abandonar a ideia de que cumprir normas é suficiente. Significa assumir que cada escolha geométrica carrega uma mensagem e que essa mensagem será interpretada no uso real da via. Vias que comunicam corretamente induzem velocidades compatíveis, reduzem conflitos e tornam o sistema mais tolerante às falhas humanas.
Ao ir além do projeto, a engenharia amplia seu impacto social. Reduz riscos de forma estrutural, contribui para a preservação de vidas e constrói ambientes mais previsíveis e seguros. Não se trata de controlar o comportamento, mas de orientar escolhas de maneira natural e intuitiva. É nesse ponto que o desenho deixa de ser apenas técnica e passa a ser responsabilidade.
MORAES, Jeferson Almeida, Coodenador-Geral de Segurança Viária da PRF, Graduado em Engenharia Civil pela UEFS, e pós-graduado em Engenharia de Tráfego e Segurança Viária pela Faculdade Focus e Avaliação e Perícia de Imóveis pela Faculdade Líbano
MORAES, Jeferson Almeida, Coodenador-Geral de Segurança Viária da PRF, Graduado em Engenharia Civil pela UEFS, e pós-graduado em Engenharia de Tráfego e Segurança Viária pela Faculdade Focus e Avaliação e Perícia de Imóveis pela Faculdade Líbano
Referências Bibliográficas
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