Este artigo analisa os impactos de intervenções de segurança viária na valorização imobiliária, com ênfase em rotatórias, medidas de traffic calming e infraestruturas cicloviárias. O objetivo geral foi compreender de que modo tais intervenções influenciam a qualidade urbana, a dinâmica dos deslocamentos e o ambiente construído, contribuindo para processos de revalorização de áreas residenciais e comerciais. Para tanto, realizou-se uma revisão bibliográfica narrativa, fundamentada em estudos nacionais e internacionais que abordam segurança viária, comportamento dos usuários, mobilidade ativa e fatores associados ao valor dos imóveis. A literatura consultada indica que rotatórias bem projetadas reduzem conflitos e aumentam a fluidez, que medidas de acalmamento de tráfego diminuem velocidades e ampliam a segurança, e que ciclovias qualificadas fortalecem a mobilidade ativa e promovem vitalidade urbana. Esses elementos combinados favorecem ambientes urbanos mais seguros, eficientes e atrativos, o que pode repercutir positivamente nos valores imobiliários ao reduzir externalidades negativas e ampliar a acessibilidade local. Observou-se, entretanto, a existência de limitações relacionadas à escassez de estudos empíricos brasileiros e à heterogeneidade metodológica das pesquisas analisadas. Conclui-se que as intervenções de segurança viária possuem potencial para contribuir com processos de valorização imobiliária, embora sejam necessários estudos adicionais que investiguem de forma comparativa e longitudinal os efeitos observados em diferentes contextos urbanos.
Palavras-chave: segurança viária. mobilidade urbana.
valorização imobiliária. infraestrutura cicloviária. traffic calming.
1. INTRODUÇÃO
A relação entre
infraestrutura viária, segurança no trânsito e organização do espaço urbano tem
recebido crescente atenção nos campos da engenharia, do planejamento e da
economia urbana. A forma como as cidades são estruturadas condiciona não apenas
o desempenho dos sistemas de mobilidade, mas também a qualidade ambiental, a
percepção de segurança e o valor social e econômico das áreas urbanas. A
literatura contemporânea reconhece que intervenções de segurança viária são
mais do que ajustes operacionais, pois possuem potencial para transformar
padrões de circulação, reduzir conflitos entre usuários da via e influenciar
diretamente a vitalidade urbana (Dabbour e Easa, 2008; Elvik, 2009). Nesse
contexto, rotatórias modernas, medidas de acalmamento de tráfego e
infraestruturas cicloviárias emergem como instrumentos capazes de promover
circulação mais previsível, reduzir velocidades críticas e fortalecer modos
ativos de deslocamento.
Essas
intervenções se inserem no marco conceitual do Sistema Seguro, abordagem
reconhecida internacionalmente e fundamentada na premissa de que o corpo humano
possui limites biomecânicos de tolerância ao impacto. Assim, o desenho viário
deve ser planejado para reduzir a probabilidade de colisões e, sobretudo,
mitigar a gravidade dos sinistros. Essa lógica, cada vez mais difundida,
desloca o foco do comportamento individual para a responsabilidade sistêmica do
ambiente urbano, integrando engenharia, fiscalização e gestão de velocidades. A
partir dessa perspectiva, intervenções como rotatórias, travessias elevadas,
estreitamentos de pista, ciclovias e soluções de moderação de tráfego não
apenas reduzem riscos, mas também reorganizam o uso do espaço, promovendo
acessibilidade, conectividade e ambiência urbana mais qualificada.
A valorização
imobiliária, por sua vez, constitui fenômeno socioeconômico complexo,
influenciado por atributos físicos, funcionais e simbólicos do ambiente
construído. A teoria da Economia Urbana e os modelos hedônicos demonstram que
fatores como acessibilidade, segurança e qualidade do entorno são determinantes
na formação de preços. Assim, intervenções que reduzam externalidades negativas,
como ruído, conflitos viários e insegurança, e ampliem atributos positivos,
como mobilidade ativa, conforto urbano e fluidez, tendem a influenciar a
percepção de valor e, consequentemente, a precificação dos imóveis. Estudos
nacionais e internacionais mostram que melhorias na segurança viária podem
gerar efeitos indiretos sobre a atratividade de bairros, a circulação de pessoas
e a vitalidade econômica local (LABMOB/UFRJ, 2021; Huang e Huang, 2024). No
entanto, tais impactos variam conforme o contexto urbano e o padrão de ocupação
do território, evidenciando a necessidade de análises mais aprofundadas,
especialmente no cenário brasileiro.
A escolha deste
tema justifica-se, portanto, pela relevância acadêmica e prática da articulação
entre segurança viária, mobilidade urbana e mercado imobiliário. Apesar da
existência de pesquisas isoladas em cada um desses campos, ainda são escassos
os estudos que integram essas dimensões de maneira sistemática, especialmente
considerando cidades brasileiras marcadas por desigualdades territoriais e
infraestrutura viária heterogênea. O presente trabalho busca suprir parte dessa
lacuna ao analisar o potencial de intervenções de segurança viária para
influenciar a valorização imobiliária, contribuindo para o debate sobre
planejamento integrado, requalificação urbana e desenvolvimento sustentável.
Diante desse
cenário, o objetivo geral deste artigo é analisar, por meio de revisão
bibliográfica, os impactos de rotatórias, medidas de acalmamento de tráfego e
infraestruturas cicloviárias sobre a valorização imobiliária, considerando seus
efeitos sobre a segurança viária, a qualidade urbana e as dinâmicas
territoriais contemporâneas.
2. METODOLOGIA
Este estudo
caracteriza-se como uma revisão bibliográfica de natureza narrativa,
desenvolvida com o objetivo de sintetizar evidências científicas acerca dos
impactos de intervenções de segurança viária, incluindo rotatórias, medidas de
traffic calming e infraestrutura cicloviária, sobre a valorização imobiliária e
a qualidade urbana. A pesquisa bibliográfica foi conduzida a partir de buscas
sistemáticas e exploratórias em bases de dados nacionais e internacionais, tais
como Google Scholar, SciELO, CAPES Periódicos, TRID (Transport Research
International Documentation), ITE (Institute of Transportation Engineers) e
OECD/ITF (International Transport Forum). As buscas utilizaram combinações de
palavras-chave em português e inglês, incluindo: “segurança viária”,
“infraestrutura viária”, “valorização imobiliária”, “mercado imobiliário”,
“roundabouts”, “traffic calming”, “ciclovias”, “mobilidade ativa”, “urban
development”, “road safety interventions” e “traffic management”.
Foram
estabelecidos critérios de inclusão direcionados à seleção de materiais
cientificamente relevantes: (i) artigos, livros, dissertações, relatórios
técnicos e documentos institucionais publicados nos últimos 10 a 15 anos; (ii)
estudos que abordam a relação entre infraestrutura viária, comportamento dos
usuários, segurança no trânsito e dinâmica urbana; (iii) pesquisas que analisam
medidas de acalmamento de tráfego, rotatórias modernas, ciclovias ou
intervenções voltadas à mobilidade ativa; e (iv) literatura nacional e
internacional com aderência temática à valorização imobiliária e aos efeitos
territoriais de intervenções viárias. Como critérios de exclusão,
desconsideraram-se documentos sem disponibilidade do texto completo, estudos
sem relação com impactos urbanísticos ou imobiliários, trabalhos restritos a
análises puramente criminais, simulações desconectadas do ambiente urbano real
ou materiais que não apresentassem consistência metodológica verificável.
O processo de
seleção ocorreu em três etapas: (i) triagem inicial por título e resumo; (ii)
leitura integral dos estudos potencialmente relevantes; e (iii) categorização
do material conforme eixos temáticos, segurança viária, comportamento dos
usuários, infraestrutura cicloviária, rotatórias, traffic calming, mobilidade
ativa, qualidade urbana e valorização imobiliária. A análise consistiu na
identificação, comparação e síntese dos achados apresentados pelos autores,
permitindo a construção de um panorama teórico integrado e coerente com o
objetivo da pesquisa. Todas as citações e referências foram elaboradas conforme
as normas ABNT NBR 10520:2002 e NBR 6023:2018, preservando rigor metodológico e
padronização acadêmica.
3. DISCUSSÃO
A literatura
analisada demonstra de forma consistente que intervenções de segurança viária
desempenham papel estruturante na organização dos fluxos urbanos, reduzindo
conflitos e promovendo maior previsibilidade no comportamento dos usuários, o
que se alinha diretamente às premissas do Sistema Seguro ao reconhecer a
necessidade de ambientes viários que tolerem erros humanos. No caso das
rotatórias, diferentes estudos destacam que sua eficácia está associada não
apenas ao desenho geométrico, mas também à compatibilidade entre geometrias,
volumes e composição do tráfego, fatores que determinam a probabilidade de
conflitos e a qualidade operacional da interseção. Dabbour e Easa (2008)
evidenciam que a incorporação de bicycle bypass lanes representa um
avanço relevante na proteção de ciclistas, ao reduzir interações diretas com
veículos motorizados e minimizar pontos de cruzamento, reforçando a importância
de soluções segregadas para usuários vulneráveis. A obra de Elvik (2009)
corrobora esse entendimento ao demonstrar que intervenções que simplificam a
tomada de decisão e reduzem a velocidade de aproximação tendem a diminuir tanto
a frequência quanto a severidade dos sinistros, reforçando a ideia de que
rotatórias bem projetadas exercem função moderadora sobre o comportamento dos
condutores.
Entretanto,
autores apontam que os efeitos positivos dessas interseções não são uniformes
em todos os contextos. Dwekat, Al-Salem e Qasem (2023) mostram que, quando a
geometria é inadequada ou desalinhada com o padrão real de circulação, podem
emergir comportamentos inesperados, especialmente em ambientes com tráfego
heterogêneo e presença significativa de veículos de duas rodas. Esses autores
observam que, em tais condições, erros de julgamento ou trajetórias
improvisadas aumentam, revelando que a percepção de segurança varia conforme o
perfil do usuário e a clareza da leitura visual da rotatória. Maji e Ghosh
(2025) ampliam essa discussão ao destacar que, em países onde motocicletas
desempenham papel dominante no trânsito, a defasagem entre demanda modal e
desenho geométrico convencional pode amplificar riscos, sobretudo quando não há
elementos complementares como faixas segregadas, travessias elevadas,
sinalização reforçada e refúgios centrais que permitam decisões graduais. Dessa
forma, a literatura converge ao afirmar que as rotatórias possuem elevado
potencial de mitigação de conflitos, mas dependem da adequação geométrica, da
integração com infraestrutura cicloviária e do alinhamento ao comportamento dos
usuários, reforçando a necessidade de projetos contextualizados, calibrados à
realidade local e embasados em evidências empíricas.
As medidas de traffic
calming compõem outro conjunto relevante de intervenções e apresentam
grande diversidade de soluções, cada uma com impactos específicos na modulação
da velocidade e na interação entre usuários da via. Em sua essência, essas
medidas buscam reduzir a energia cinética disponível em cenários de conflito,
alinhando-se diretamente ao princípio central do Sistema Seguro, que reconhece
que pequenas variações de velocidade podem produzir grandes diferenças no risco
e na severidade dos sinistros. Travessias elevadas, por exemplo, geram redução
imediata da velocidade e aumentam a segurança de pedestres não apenas ao
elevarem sua visibilidade, mas também ao reposicionar pedestres e veículos no
mesmo plano de leitura visual, favorecendo a previsibilidade das interações. As
chicanes, por sua vez, introduzem desvios laterais que alteram o alinhamento da
via e obrigam o condutor a reduzir a velocidade para manter o controle
direcional, produzindo um efeito de calma viária contínuo ao longo do trecho.
Estreitamentos de pista, sejam físicos ou ópticos, induzem percepção
psicológica de maior risco potencial, reduzindo a tendência natural de
aceleração em vias excessivamente largas.
Elvik (2009)
demonstra que medidas físicas superam, em eficácia, dispositivos meramente
informativos como placas ou campanhas, uma vez que o ambiente construído possui
impacto direto sobre a tomada de decisão, reduzindo a dependência do
comportamento individual e aumentando a consistência da resposta dos usuários.
Esse argumento reforça a premissa de que a engenharia viária deve atuar como
condicionadora do comportamento, minimizando o espaço para erros humanos e
ampliando margens de segurança. Huang e Huang (2024) ampliam essa análise ao
mostrar que a adoção integrada de medidas como iluminação adequada,
estreitamentos progressivos, mobiliário urbano, paisagismo e travessias
elevadas gera um efeito sinérgico, fortalecendo a percepção de segurança e
induzindo maior adoção de modos ativos, como caminhar e pedalar. Essa
integração cria ambientes urbanos mais legíveis e acolhedores, contribuindo
para a redução da velocidade por fatores tanto funcionais quanto psicológicos.
Apesar do
consenso acerca de seus benefícios, a literatura apresenta divergências quanto
à durabilidade dos efeitos do traffic calming. Intervenções isoladas
tendem a perder impacto ao longo do tempo quando não inseridas em uma rede de
mobilidade coerente e compatível com o padrão local de circulação. Isso ocorre
porque usuários frequentes podem desenvolver estratégias para neutralizar seus
efeitos, especialmente em vias arteriais ou coletoras onde o desejo de
velocidade é elevado. Por outro lado, abordagens sistêmicas demonstram
consistência mais robusta, uma vez que criam uma ambiência completa de
segurança, não apenas por meio de elementos físicos, mas também pela
reorganização da hierarquia viária, pela redistribuição de fluxos e pela
integração com políticas de uso do solo. A literatura recente sugere que a
combinação entre medidas físicas, reconfiguração do espaço urbano e estímulo à
mobilidade ativa produz resultados mais sustentáveis, tanto em termos de
segurança quanto de vitalidade urbana (Huang e Huang, 2024; LABMOB, 2021). Tais
achados reforçam a necessidade de intervenções contextualizadas e desenhadas
com visão territorial, evitando soluções pontuais que, embora eficazes no curto
prazo, podem se mostrar insuficientes diante de dinâmicas urbanas complexas.
A literatura
sobre infraestruturas cicloviárias também se destaca por apresentar evidências
amplas e diversificadas acerca de seus benefícios, tanto para a segurança
viária quanto para a vitalidade econômica das cidades. O relatório do LABMOB
(2021) aponta que a expansão de redes cicláveis conectadas promove não apenas
aumento do fluxo de ciclistas, mas também estímulo a transformações
territoriais que repercutem diretamente na paisagem urbana. Essas redes ampliam
a previsibilidade dos deslocamentos e reduzem a exposição de ciclistas a
conflitos diretos com veículos motorizados, contribuindo para a mitigação de
riscos e fortalecendo a segurança percebida. Ao mesmo tempo, a literatura
demonstra que ciclovias não operam apenas como infraestrutura de transporte,
mas como indutoras de vitalidade urbana, circulação de consumidores e ativação
do comércio local, especialmente em áreas com atividades comerciais de pequeno
porte, onde a escala humana é mais pronunciada (LABMOB, 2021).
Nesse contexto,
ciclovias orientadas à ciclogística representam um avanço significativo ao
permitir a operação eficiente de entregas de curta distância, reduzindo custos
operacionais e aumentando a produtividade de estabelecimentos comerciais
dependentes de logística rápida. Essa combinação entre infraestrutura ciclável
e logística urbana reforça a tendência contemporânea de cidades compactas, onde
o aumento da circulação de pessoas no térreo, associado a deslocamentos mais
lentos e previsíveis, fortalece a vitalidade econômica local. Estudos como o de
Góes e Silveira Neto (2024) demonstram que a implantação de infraestrutura
cicloviária reduz sinistros ao reorganizar a dinâmica modal e ao criar
ambientes viários mais legíveis e intuitivos, diminuindo oportunidades de erro
e ampliando margens de segurança, especialmente para usuários vulneráveis.
Esses autores destacam ainda que a atratividade urbana resultante da
implantação de ciclovias tende a gerar efeitos positivos sobre a percepção de
qualidade do espaço, influenciando simultaneamente práticas de mobilidade e
processos econômicos territoriais.
Apesar de
existirem evidências consistentes sobre seus benefícios, a literatura ressalta
que os efeitos da infraestrutura cicloviária variam significativamente segundo
renda, densidade urbana e qualidade do traçado ciclável. Em áreas de alta renda
e maior adensamento, onde o uso do solo é consolidado e a malha viária
apresenta melhor conectividade, ciclovias tendem a produzir impactos mais
imediatos sobre segurança e atratividade. No entanto, em áreas periféricas,
frequentemente caracterizadas por urbanização fragmentada, grandes distâncias e
presença reduzida de comércio de proximidade, os efeitos podem ser mitigados em
razão da menor integração com redes de mobilidade existentes. Isso explica por
que, segundo o próprio LABMOB (2021), a efetividade das ciclovias depende
fortemente da articulação com políticas mais amplas de mobilidade urbana,
incluindo redes de transporte coletivo, planejamento de uso do solo e
estratégias de requalificação territorial.
Persistem ainda
divergências sobre a magnitude e o alcance dos impactos de ciclovias em
diferentes contextos socioeconômicos. Estudos como o de Góes e Silveira Neto
(2024) sugerem que melhorias substanciais na segurança ocorrem de forma mais
robusta em áreas onde o desenho ciclável incorpora soluções como segregação
física, travessias seguras e continuidade de trajetos. Em contrapartida,
intervenções pontuais ou desconectadas tendem a produzir benefícios mais
modestos e, em alguns casos, podem até gerar situações de risco quando induzem
ciclistas a compartilharem trechos críticos com automóveis. Tais divergências
reforçam a necessidade de compreender infraestruturas cicloviárias como parte
de um ecossistema de mobilidade, no qual seu desempenho e impacto dependem
diretamente de fatores estruturais, como conectividade, legibilidade,
manutenção e política urbana
Ao aproximar
essas intervenções da discussão sobre valorização imobiliária, torna-se
evidente que seus efeitos ultrapassam a esfera técnica e alcançam dimensões
urbanas e econômicas mais amplas, articulando segurança viária, mobilidade,
forma urbana e dinâmica territorial. A teoria da Economia Urbana sustenta que
os imóveis incorporam, em seu valor, um conjunto de atributos tangíveis, como
acessibilidade, disponibilidade de serviços e características do entorno, e
intangíveis, como percepção de segurança, conforto ambiental e qualidade do
espaço público. O modelo hedônico, amplamente utilizado na avaliação de preços,
demonstra que a formação do valor imobiliário resulta da soma ponderada desses
atributos, de modo que externalidades negativas, como ruído, congestionamento,
poluição e alto risco viário, reduzem o valor de mercado, enquanto sua
mitigação tende a incrementá-lo. Intervenções de segurança viária atuam
diretamente sobre essas externalidades ao redistribuírem fluxos, reduzirem
velocidades e aumentarem a previsibilidade dos deslocamentos, aproximando-se
das recomendações de Elvik (2009), que mostra que ambientes viários mais
seguros reduzem custos sociais associados aos sinistros e tendem a produzir
ambientes urbanos mais atrativos.
Essa lógica
também se reflete nas evidências empíricas relacionadas à mobilidade ativa.
Estudos recentes, como o de Góes e Silveira Neto (2024), demonstram que a
implantação de infraestrutura cicloviária de qualidade reduz sinistros, gera
ambientes mais legíveis e reconfigura a dinâmica modal, influenciando
positivamente a percepção de qualidade urbana. Somado a isso, o relatório do
LABMOB (2021) indica que redes cicláveis integradas podem fortalecer atividades
comerciais de proximidade, ampliar a circulação de consumidores e estimular
usos mistos no térreo, elementos associados à vitalidade urbana e, portanto, à
valorização de áreas consolidadas. Do ponto de vista econômico, tais
intervenções criam um ciclo virtuoso: ao reduzir externalidades negativas e aumentar
atributos desejáveis, elevam a utilidade percebida pelos moradores e
investidores, resultando na apreciação de valores imobiliários.
A literatura
também sugere que os impactos variam conforme o perfil funcional do território.
Áreas residenciais tendem a sofrer valorização mais imediata mediante a redução
de ruído, a qualificação das travessias e o aumento da segurança percebida,
especialmente quando medidas de traffic calming tornam as vias mais
compatíveis com o uso social do espaço. Já áreas comerciais beneficiam-se da
ampliação de circulação de pessoas e da segurança dos deslocamentos de
clientes, particularmente em regiões onde infraestruturas cicloviárias
incrementam a conectividade micrologística e a permanência do pedestre,
fenômeno assinalado pelo LABMOB (2021). Assim, intervenções viárias, ainda que
concebidas para segurança, interagem com os fundamentos do mercado imobiliário ao
alterar custos de deslocamento, padrões de acessibilidade e qualidade ambiental
do entorno. Isso demonstra que a valorização imobiliária decorrente de
melhorias na segurança viária não é apenas uma consequência indireta, mas um
reflexo das transformações estruturais na forma como o espaço urbano é
percebido, utilizado e apropriado.
Esse conjunto de
interações gera um processo mais amplo de reconfiguração territorial, no qual
espaços urbanos antes marcados por insegurança, baixa atratividade e conflitos
viários passam a apresentar novas possibilidades de uso, ocupação e integração
funcional. Intervenções que reduzem velocidades, reorganizam fluxos e ampliam a
mobilidade ativa tendem a produzir ambientes mais seguros e, simultaneamente,
mais propícios ao desenvolvimento de atividades econômicas de proximidade,
contribuindo para a vitalidade urbana apontada pelo LABMOB (2021). A literatura
demonstra que transformações dessa natureza não se limitam ao ambiente imediato
da intervenção, mas irradiam efeitos que podem alterar gradualmente a percepção
de valor de bairros inteiros, reforçando mecanismos de apropriação social do
espaço e estimulando a permanência de moradores e investidores. Trata-se de um
processo cumulativo, no qual segurança viária, mobilidade qualificada e
dinamismo socioeconômico operam de maneira interdependente.
Contudo, a
literatura também revela lacunas relevantes, especialmente quando se considera
a diversidade de contextos urbanos. Muitos estudos concentram-se em países
desenvolvidos, onde a qualidade urbana, a infraestrutura existente e a
governança territorial apresentam maior estabilidade e coerência institucional.
Nesses países, intervenções de segurança viária tendem a produzir resultados
mais previsíveis, dada a maior integração entre planejamento viário, uso do
solo e políticas de incentivo à mobilidade ativa. Em contrapartida, em países
latino-americanos, entre eles o Brasil, fatores como informalidade urbana,
vulnerabilidade territorial, heterogeneidade viária, déficit histórico de
infraestrutura e fragilidade na articulação intersetorial podem mitigar,
atrasar ou alterar significativamente os efeitos esperados das intervenções.
Góes e Silveira Neto (2024) apontam que a eficácia da infraestrutura
cicloviária, por exemplo, depende de continuidade, integração e robustez do
traçado, elementos frequentemente ausentes em cidades marcadas por expansão
urbana desordenada.
Além disso,
desigualdades estruturais influenciam tanto a adoção de modos ativos quanto a
apropriação dos benefícios das intervenções. Áreas periféricas, caracterizadas
por longas distâncias de deslocamento e baixa disponibilidade de comércio e
serviços, podem experimentar impactos mais modestos na vitalidade urbana, mesmo
com a implantação de melhorias viárias. Do ponto de vista econômico, a
literatura nota que o mercado imobiliário responde de forma diferenciada a
intervenções de segurança conforme renda, oferta de transporte e contexto
territorial, o que torna insuficiente qualquer abordagem que considere seus
efeitos de maneira homogênea. Por essas razões, autores defendem a necessidade
de estudos comparativos que analisem diferentes contextos socioespaciais e
explorem não apenas os efeitos imediatos sobre a segurança viária, mas também
transformações graduais no mercado imobiliário, nos padrões de deslocamento e
nas dinâmicas de ocupação urbana. A ausência de pesquisas sistemáticas no
Brasil e na América Latina destaca um campo fértil para investigações que
articulem engenharia de tráfego, planejamento urbano e economia imobiliária,
permitindo compreender de forma mais precisa como intervenções de segurança
viária podem influenciar mudanças estruturais no território.
Assim, a
discussão consolidada pela literatura aponta que rotatórias, medidas de
acalmamento de tráfego e infraestruturas cicloviárias possuem potencial
significativo para reorganizar fluxos, aumentar a segurança e melhorar a
qualidade urbana, influenciando positivamente processos de valorização
imobiliária. Entretanto, a magnitude desses efeitos depende de condições
locais, da qualidade do projeto e da integração das intervenções com políticas
urbanas mais amplas. A revisão realizada evidencia um campo fértil para
aprofundamentos teóricos e empíricos, especialmente no contexto brasileiro,
onde a produção científica ainda é incipiente e onde intervenções de segurança
viária têm sido historicamente tratadas de modo fragmentado e pouco conectado
ao planejamento territorial.
4. CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A revisão
bibliográfica realizada permitiu discutir os impactos de intervenções de
segurança viária na valorização imobiliária, com ênfase em rotatórias, medidas
de traffic calming e infraestruturas cicloviárias. Os estudos analisados
indicam que essas intervenções contribuem para ambientes urbanos mais seguros,
previsíveis e acessíveis, influenciando diretamente o comportamento dos
usuários da via e promovendo melhorias na qualidade urbanística. A literatura
aponta que rotatórias bem projetadas reduzem conflitos e aumentam a fluidez,
que medidas de acalmamento diminuem velocidades e ampliam a segurança, e que
ciclovias qualificadas fortalecem a mobilidade ativa e estimulam dinâmicas
econômicas locais. Esses fatores, em conjunto, favorecem processos de revalorização
imobiliária ao reduzir externalidades negativas e tornar áreas urbanas mais
atrativas para usos residenciais e comerciais.
Apesar da
consistência das evidências identificadas, a revisão também revela limitações
importantes, especialmente a escassez de estudos brasileiros que relacionem
diretamente intervenções viárias e variações no mercado imobiliário. Observa-se
ainda heterogeneidade metodológica entre as pesquisas, o que dificulta
comparações mais precisas sobre a magnitude dos impactos. Diante dessas
lacunas, recomenda-se que investigações futuras incluam análises empíricas
comparativas, estudos longitudinais com dados de mercado antes e depois de
intervenções e avaliações diferenciadas conforme o tipo e a escala das
melhorias viárias implementadas. Em síntese, a literatura consultada demonstra
que intervenções de segurança viária têm potencial para promover qualidade
urbana e repercutir positivamente na valorização imobiliária, sobretudo ao
gerarem um ambiente de baixa velocidade operacional, fator decisivo para a
redução de fatalidades e lesões graves em sinistros, embora ainda haja
necessidade de aprofundamento científico para mensurar com maior precisão esses
efeitos em diferentes contextos territoriais.
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