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Infraestrutura viária também mata ou salva

Infraestrutura viária também mata ou salva


Durante muito tempo, a discussão sobre mortes no trânsito foi conduzida quase exclusivamente a partir do comportamento individual. O foco recaiu sobre o excesso de velocidade, a imprudência, a distração ao volante, o consumo de álcool ou outras substâncias. Esses fatores existem, são reais e não devem ser ignorados. No entanto, quando colocados como causa central e quase exclusiva das tragédias viárias, acabam produzindo uma narrativa incompleta — e, em muitos casos, injusta.

Incompleta porque ignora o contexto em que essas decisões são tomadas. Injusta porque transfere toda a responsabilidade para o indivíduo, como se cada escolha ocorresse em um ambiente neutro, racional e perfeitamente controlado. A realidade é outra. As pessoas tomam decisões influenciadas pelo espaço ao seu redor, pelos estímulos visuais, pela geometria da via, pela previsibilidade — ou imprevisibilidade — dos conflitos e, principalmente, pela mensagem que a própria infraestrutura transmite.

A ciência da segurança viária é clara ao demonstrar que a infraestrutura viária não é neutra. Ela não apenas recebe o comportamento humano: ela o modela. O desenho da via induz velocidades, orienta trajetórias, define prioridades implícitas e estabelece o grau de tolerância ao erro. Uma via larga, reta, com múltiplas faixas e ausência de elementos de moderação comunica ao condutor que altas velocidades são aceitáveis, mesmo em ambientes urbanos. Da mesma forma, interseções complexas, travessias longas e ausência de proteção expõem pedestres e ciclistas a conflitos de alta energia, independentemente do cuidado individual que adotem.

Quando ocorre um erro — e ele ocorrerá, porque errar é humano — é a infraestrutura que determina o desfecho. Ela define quanta energia será liberada no impacto, quem estará exposto a essa energia e quais camadas de proteção existirão para absorvê-la. Nesse sentido, a infraestrutura pode matar, quando ignora os limites físicos do corpo humano e permite conflitos incompatíveis com a vida, ou pode salvar, quando é projetada para antecipar falhas, reduzir velocidades e proteger os usuários mais vulneráveis.

Essa visão não é uma opinião pessoal nem uma construção retórica. Trata-se de um consenso técnico internacional, consolidado na abordagem conhecida como Sistema Seguro (Safe System Approach). Essa abordagem vem sendo adotada por organismos multilaterais como a OCDE, a Organização Mundial da Saúde e o Fórum Internacional de Transportes, além de orientar políticas públicas de segurança viária em diversos países.

O Sistema Seguro parte de um princípio simples e poderoso: o erro humano é inevitável, mas a morte não é. Cabe ao sistema — e, sobretudo, à infraestrutura — criar um ambiente viário capaz de absorver esse erro sem transformá-lo em uma sentença fatal. A partir desse entendimento, a discussão sobre segurança viária deixa de ser moralizante e passa a ser técnica, ética e estrutural.

É nesse ponto que a pergunta central se impõe:
não basta saber quem errou — é preciso compreender por que o sistema permitiu que esse erro fosse fatal.

O erro humano é inevitável — a morte, não

O Sistema Seguro parte de quatro premissas fundamentais que reorganizam completamente a forma como se compreende a segurança no trânsito e a responsabilidade pelas mortes evitáveis nas vias. A primeira delas reconhece que pessoas cometem erros. Nenhum sistema que dependa da perfeição humana é sustentável. Distrações momentâneas, falhas de percepção, julgamentos equivocados e lapsos de atenção fazem parte do comportamento humano e continuarão ocorrendo, independentemente do nível de fiscalização, educação ou punição existente.

A segunda premissa parte de um dado físico incontestável: o corpo humano possui limites bem definidos de tolerância à energia do impacto. Acima de determinados níveis de velocidade e força, o organismo simplesmente não resiste. Ossos, órgãos e tecidos não foram feitos para absorver grandes quantidades de energia cinética. Ignorar esse limite é ignorar a própria biologia humana. Quando uma via permite colisões em velocidades incompatíveis com essa tolerância, ela cria um ambiente estruturalmente letal.

A terceira premissa rompe com a lógica tradicional de culpa exclusiva do indivíduo ao afirmar que a responsabilidade pela segurança é compartilhada. Usuários têm o dever de agir com cuidado e dentro das normas, mas projetistas, gestores, operadores e formuladores de políticas públicas também são responsáveis pelas consequências das decisões técnicas que tomam. Cada escolha de geometria, sinalização, prioridade, velocidade permitida ou ausência de proteção é, na prática, uma decisão sobre o nível de risco imposto às pessoas.

Por fim, o Sistema Seguro estabelece que as camadas de proteção devem funcionar de forma integrada. Nenhuma medida isolada é suficiente. Se uma camada falhar — seja o comportamento do usuário, a fiscalização, o veículo ou a sinalização —, outra deve estar presente para evitar que o erro resulte em morte ou lesão grave. A segurança emerge da redundância, da complementaridade e da coerência entre todos os elementos do sistema viário.

Diante dessas premissas, a conclusão é inevitável: se errar é humano, projetar um sistema que transforma erros em sentenças de morte é uma falha estrutural, e não individual. A infraestrutura segura é aquela que reconhece a falibilidade humana, antecipa o erro, reduz a energia do impacto e oferece proteção efetiva aos usuários mais vulneráveis — especialmente pedestres, ciclistas e motociclistas, que concentram a maior parte das vítimas fatais no meio urbano.

Alocação de espaço: quem a rua protege?

O desenho viário tradicional, adotado por décadas em cidades de todo o mundo, foi orientado quase exclusivamente pela busca da fluidez dos veículos motorizados. Ruas mais largas, múltiplas faixas, raios de curva generosos e interseções pensadas para manter o fluxo constante de automóveis tornaram-se o padrão. Nesse modelo, pedestres e ciclistas foram tratados como elementos secundários, muitas vezes tolerados, mas raramente priorizados. Calçadas estreitas, descontinuidades no percurso, ausência de ciclovias, travessias longas e interseções hostis não são exceções: são consequências diretas dessa lógica de projeto.

Esse arranjo espacial produz um efeito claro e previsível. Ao concentrar espaço, visibilidade e conforto no tráfego motorizado, a infraestrutura expõe os usuários mais vulneráveis a conflitos de alta energia, nos quais qualquer erro — seja do condutor, seja do pedestre ou ciclista — tem grande probabilidade de resultar em lesões graves ou morte. A rua, nesse contexto, deixa de ser um espaço de convivência e passa a operar como um ambiente de risco permanente para quem não está protegido por uma carroceria.

A evidência técnica acumulada nas últimas décadas demonstra que a redistribuição do espaço viário salva vidas. Calçadas contínuas e dimensionadas adequadamente reduzem atropelamentos e melhoram a previsibilidade dos deslocamentos a pé. Ciclovias protegidas, com separação física do tráfego motorizado, reduzem drasticamente o número e a gravidade dos sinistros envolvendo ciclistas. A separação clara entre modos de transporte incompatíveis em termos de massa e velocidade reduz conflitos, limita a energia do impacto e cria margens reais de segurança.

Quando essas proteções não existem, o risco não pode ser tratado como um evento fortuito ou inevitável. Ele não é fruto do acaso nem exclusivamente do comportamento individual. Trata-se de um risco estrutural, incorporado ao próprio desenho da via. Nesse sentido, a ausência de proteção não é uma omissão neutra: é uma escolha de projeto. Onde não há espaço seguro para caminhar ou pedalar, o perigo não é “acidental” — ele é projetado.O desenho viário tradicional priorizou, por décadas, a fluidez dos veículos motorizados. Calçadas estreitas, ausência de ciclovias, travessias longas e interseções hostis são consequências diretas dessa lógica. O resultado é previsível: usuários vulneráveis expostos a conflitos de alta energia.

Estudos mostram que calçadas adequadas, ciclovias protegidas e separação física entre modos reduzem significativamente mortes e lesões graves. Onde essa proteção não existe, o risco não é “acidental” — ele é projetado .

Velocidade não é detalhe: é física

A velocidade é o principal multiplicador da gravidade dos sinistros de trânsito. Ela não atua apenas como um fator adicional de risco, mas como o elemento que define a quantidade de energia cinética envolvida em uma colisão. Pequenos aumentos na velocidade média dos veículos resultam em aumentos desproporcionais no número de mortes e lesões graves, porque a energia do impacto cresce de forma exponencial. Para pedestres, essa relação é especialmente cruel: a probabilidade de morte em uma colisão a 50 km/h é quase cinco vezes maior do que a 30 km/h. Não se trata de opinião, mas de física básica aplicada ao corpo humano.

Diante disso, tratar a velocidade como uma simples variável comportamental é um equívoco técnico. A gestão da velocidade não pode depender apenas de placas de sinalização ou de apelos à responsabilidade individual. A velocidade praticada no dia a dia é definida, sobretudo, pelo desenho da via. A geometria, a largura das faixas, a presença ou ausência de obstáculos visuais, os raios de curva, o espaçamento entre interseções e a forma como o espaço urbano é configurado comunicam, de maneira implícita, qual velocidade é aceitável.

Infraestruturas amplas, retas, com longos campos de visão e poucos elementos de moderação “convidam” à alta velocidade, mesmo em áreas urbanas. Quando esse convite é feito em ambientes onde pedestres e ciclistas estão presentes, o resultado são sinistros graves e fatais. Em contrapartida, vias desenhadas para induzir velocidades compatíveis com o contexto — por meio de estreitamentos, interseções mais frequentes, travessias elevadas, curvas mais fechadas e maior complexidade visual — reduzem a energia disponível no impacto e ampliam as chances de sobrevivência.

Nesse sentido, a infraestrutura faz uma escolha silenciosa, porém decisiva. Ela pode permitir que a física atue de forma implacável, transformando erros comuns em mortes evitáveis, ou pode domar a velocidade, controlar a energia e preservar vidas. Infraestruturas que ignoram essa relação produzem sinistros graves. Infraestruturas que a incorporam salvam vidas.

Entorno da via: proteção ou ilusão de segurança

Os elementos que compõem o entorno da via — como postes, árvores, gradis, barreiras, defensas, mobiliário urbano e veículos estacionados — exercem influência direta sobre a segurança viária. Dependendo de como são posicionados e integrados ao desenho da rua, esses elementos podem proteger usuários vulneráveis ou, ao contrário, agravar significativamente o risco. O entorno da via não é um cenário neutro: ele comunica mensagens, molda percepções e influencia o comportamento dos condutores.

Em muitos contextos urbanos, o uso excessivo de barreiras físicas e segregações rígidas cria uma ilusão de segurança. Ao separar visualmente pedestres e ciclistas do fluxo motorizado, essas soluções podem induzir o condutor a perceber o ambiente como mais controlado e previsível do que realmente é. Essa percepção reduz a sensação de risco, favorece a adoção de velocidades mais elevadas e diminui o nível de atenção. O resultado é um paradoxo: dispositivos instalados com a intenção de aumentar a segurança acabam estimulando comportamentos que elevam a gravidade dos sinistros.

Além disso, barreiras mal posicionadas podem comprometer a visibilidade, dificultar travessias, fragmentar o espaço urbano e forçar deslocamentos mais longos e inseguros por parte dos pedestres. Em vez de proteger, essas soluções podem transferir o risco para outros pontos da via, criando conflitos mais perigosos e menos previsíveis.

Experiências internacionais indicam que, em ambientes urbanos, vias mais abertas, com maior visibilidade mútua entre usuários e maior interação visual, tendem a produzir comportamentos mais cautelosos. Quando condutores percebem a presença constante de pedestres, ciclistas e atividades urbanas, ajustam naturalmente sua velocidade e seu nível de atenção. Essa redução espontânea do risco não ocorre por imposição, mas por percepção.

O que, à primeira vista, pode parecer contraintuitivo ao senso comum — remover barreiras, abrir o espaço, reduzir a segregação excessiva — é, na prática, engenharia comportamental aplicada. Trata-se de projetar a via não apenas para resistir ao impacto, mas para influenciar decisões, induzir prudência e reduzir a probabilidade de que erros comuns se transformem em sinistros graves ou fatais.

Menos tráfego, menos mortes

Existe uma relação direta, consistente e amplamente documentada entre o volume de tráfego motorizado e o número de sinistros de trânsito. Quanto maior a quantidade de veículos circulando, maior a probabilidade de conflitos, maior a complexidade do ambiente viário e maior a energia disponível para produzir lesões graves e mortes. Essa relação não é linear nem casual: ela é estrutural.

Cidades que adotaram ruas exclusivas para pedestres, bairros de tráfego reduzido, zonas de acesso restrito e planos de circulação que eliminam o tráfego de passagem em áreas residenciais observaram quedas expressivas no número de colisões e vítimas. Esses resultados não se limitam às áreas diretamente transformadas. Em muitos casos, a redução dos sinistros também ocorre nas vias do entorno, em razão da reorganização dos fluxos, da diminuição das velocidades médias e da redução da exposição ao risco.

A presença massiva de veículos motorizados impõe um custo oculto à segurança viária. Mais carros significam mais cruzamentos de trajetórias, mais decisões simultâneas, mais pontos de conflito e menor margem de erro. Quando o sistema depende de que todos acertem o tempo todo, ele se torna intrinsecamente frágil. Reduzir o tráfego, portanto, não é uma medida estética nem simbólica; é uma forma objetiva de simplificar o sistema, torná-lo mais legível e menos propenso a falhas catastróficas.

Nesse sentido, reduzir tráfego não é “ideologia urbana”. É gestão de risco baseada em evidência. Onde há menos veículos, há menos conflitos potenciais, menos energia circulando no espaço viário e, consequentemente, menos mortes.

Interseções: onde a infraestrutura decide

A maioria dos sinistros ocorre em interseções. É ali que fluxos se cruzam, decisões precisam ser rápidas e erros têm consequências severas. Rotatórias, canalização de movimentos, daylighting, travessias elevadas e reconfigurações geométricas reduzem pontos de conflito e a gravidade dos impactos.

Interseções mal projetadas fabricam sinistros. Interseções seguras interrompem a cadeia da morte .

Tecnologia e dados: corrigir antes que alguém morra

A maioria dos sinistros de trânsito ocorre nas interseções. É nesses pontos que fluxos distintos se cruzam, múltiplas decisões precisam ser tomadas em frações de segundo e a margem para erro se reduz drasticamente. Condutores, pedestres e ciclistas disputam o mesmo espaço, muitas vezes com informações incompletas, visibilidade limitada e expectativas conflitantes. Quando o desenho da interseção não é claro, legível e compatível com as capacidades humanas, o risco deixa de ser exceção e passa a ser regra.

Interseções tradicionais, concebidas para maximizar a fluidez veicular, costumam concentrar um grande número de pontos de conflito e permitir ângulos de colisão severos. Nesses ambientes, qualquer erro de julgamento — uma conversão mal avaliada, uma travessia iniciada com atraso, uma distração momentânea — pode resultar em impactos de alta energia. O desenho, nesse caso, não apenas permite o sinistro: ele o torna provável.

Por outro lado, intervenções baseadas em princípios de segurança comprovados têm potencial direto de salvar vidas. Rotatórias reduzem velocidades e alteram os ângulos de colisão, diminuindo drasticamente a gravidade dos impactos. A canalização de movimentos organiza os fluxos e elimina conflitos desnecessários. O daylighting, ao remover obstáculos visuais próximos às esquinas, amplia o campo de visão e antecipa a percepção de risco. Travessias elevadas e reconfigurações geométricas encurtam distâncias, priorizam o pedestre e impõem velocidades compatíveis com o ambiente urbano.

Essas soluções não funcionam por acaso. Elas atuam diretamente sobre o comportamento humano, reduzindo a complexidade das decisões, aumentando a previsibilidade e limitando a energia disponível quando algo dá errado. Nesse sentido, a interseção deixa de ser um ponto de ruptura e passa a funcionar como uma camada ativa de proteção.

Interseções mal projetadas fabricam sinistros, ao expor pessoas a conflitos evitáveis e impactos incompatíveis com a vida. Interseções seguras, ao contrário, interrompem a cadeia da morte, transformando erros comuns em eventos dos quais é possível sair vivo.

Conclusão: a infraestrutura faz escolhas

Toda rua faz escolhas, mesmo quando essas escolhas não são explicitadas. Cada traçado, cada largura de faixa, cada interseção, cada travessia e cada elemento do entorno comunicam prioridades e distribuem riscos. A infraestrutura viária não é um pano de fundo neutro onde os comportamentos simplesmente acontecem; ela é um agente ativo, que orienta decisões e condiciona resultados.

A rua escolhe quem é protegido quando define onde há calçadas contínuas, onde existem ciclovias segregadas e onde usuários vulneráveis precisam disputar espaço com veículos de grande massa e alta velocidade. Ela escolhe a velocidade aceitável não apenas por meio de placas, mas pela geometria, pela legibilidade do espaço e pelos estímulos visuais que induzem o comportamento dos condutores. E, de forma ainda mais decisiva, ela escolhe quanta energia será liberada quando algo inevitavelmente der errado.

Quando a infraestrutura ignora o erro humano e desconsidera a vulnerabilidade do corpo, ela transforma falhas comuns em consequências irreversíveis. Nesse cenário, a morte deixa de ser um evento excepcional e passa a ser um resultado previsível do sistema. Por outro lado, quando a via é projetada para antecipar o risco, reduzir velocidades, controlar a energia do impacto e proteger os usuários mais frágeis, ela interrompe a cadeia que leva ao sinistro grave e salva vidas.

Por isso, segurança viária não se resume à fiscalização ou à educação, embora ambas sejam importantes. Ela é, sobretudo, engenharia com responsabilidade ética — a decisão consciente de projetar espaços que reconheçam os limites humanos e coloquem a preservação da vida como prioridade inegociável.


MORAES, Jeferson Almeida, Coodenador-Geral de Segurança Viária da PRF, Graduado em Engenharia Civil pela UEFS, e pós-graduado em Engenharia de Tráfego e Segurança Viária pela Faculdade Focus e Avaliação e Perícia de Imóveis pela Faculdade Líbano, pós-graduando em Engenharia Diagnóstica: Patologia, Desempenho e Perícias na Construção Civil pela Faculdade Unyleia

Fonte principal

International Transport Forum (ITF). Road Safety in Cities: Street Design and Traffic Management Solutions. OECD Publishing, 2021.


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