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O que é o Sistema Seguro e por que ele muda tudo

 


A persistência de altos índices de mortes no trânsito, mesmo após décadas de campanhas educativas, endurecimento das leis e intensificação da fiscalização, evidencia os limites de um modelo centrado quase exclusivamente na responsabilização individual do usuário. Ao tratar os sinistros como resultado de falhas isoladas de comportamento, esse paradigma ignora a complexidade do trânsito como sistema e acaba naturalizando perdas evitáveis.

O Sistema Seguro surge como resposta a esse impasse ao reconhecer que o erro humano é inevitável e que o corpo humano possui limites físicos de tolerância a impactos. A partir dessa premissa, a segurança deixa de ser apenas uma questão de conduta individual e passa a ser uma responsabilidade compartilhada entre todos os atores que planejam, projetam, regulam e operam o sistema de mobilidade.

Ao colocar a vida no centro das decisões, o Sistema Seguro propõe uma abordagem estrutural, preventiva e ética, capaz de absorver falhas humanas sem produzir mortes ou lesões graves. Essa mudança redefine prioridades, orienta investimentos e transforma a segurança viária em um compromisso permanente do Estado e da sociedade.

Sumário

O problema que insiste em não mudar

Todos os anos, o trânsito mata mais de um milhão de pessoas no mundo. Não é um número novo, nem desconhecido. Ele se repete há décadas, atravessa relatórios, campanhas educativas, operações de fiscalização e discursos bem intencionados. O mais inquietante é que, apesar de todo o esforço acumulado, esses números permanecem altos, estáveis e socialmente tolerados. É como se a violência no trânsito tivesse sido naturalizada, incorporada ao cotidiano como um preço inevitável da mobilidade moderna.

Ao longo do tempo, aprendemos a conviver com essa tragédia silenciosa. Quando ocorre um sinistro grave, a reação costuma ser imediata e previsível: busca-se o erro do motorista, a imprudência, a distração, o excesso de velocidade. O foco recai quase sempre sobre o indivíduo. A narrativa se encerra rapidamente com a ideia de que foi uma fatalidade, um desvio de conduta, algo difícil de evitar. E a vida segue, até o próximo número, a próxima estatística, a próxima perda.

"...talvez o problema não esteja apenas nas pessoas, mas no próprio sistema em que elas se deslocam..."

Mas há um ponto incômodo que raramente é enfrentado com honestidade: se o problema fosse apenas comportamento individual, os números já teriam caído de forma consistente. Campanhas educativas se multiplicaram, leis foram endurecidas, tecnologias de fiscalização avançaram. Ainda assim, o risco permanece alto, especialmente para os mais vulneráveis. Isso nos obriga a considerar uma hipótese desconfortável, porém necessária: talvez o problema não esteja apenas nas pessoas, mas no próprio sistema em que elas se deslocam.

O trânsito é um ambiente complexo, onde decisões de projeto, escolhas políticas, padrões urbanos, limites de velocidade e características dos veículos interagem com o comportamento humano. Tratar cada morte como resultado exclusivo de um erro individual é ignorar essa complexidade. É simplificar um fenômeno estrutural e, ao fazer isso, limitar drasticamente nossa capacidade de transformá-lo.

É justamente nesse ponto que surge a pergunta que muda tudo: e se o erro humano não fosse a exceção, mas a regra? E se, em vez de esperar que todos se comportem perfeitamente o tempo todo, o sistema fosse projetado para proteger a vida mesmo quando alguém erra? Essa mudança de olhar não é apenas conceitual. Ela redefine responsabilidades, prioridades e, sobretudo, o que consideramos aceitável como sociedade.

Precisamos entender como o modelo tradicional de segurança viária se consolidou, por que ele se mostrou insuficiente e por que insistir nele é, na prática, aceitar que o problema continue sem grandes mudanças.

Quando a culpa é sempre do usuário

Durante muito tempo, a segurança no trânsito foi pensada a partir de uma lógica simples: se as pessoas se comportarem melhor, o problema estará resolvido. Assim, campanhas educativas passaram a ocupar espaço central, leis foram criadas ou endurecidas, penalidades aumentaram e a fiscalização ganhou protagonismo. O foco estava claro: corrigir o comportamento individual para evitar sinistros.

Essa abordagem parte de uma premissa implícita poderosa: a de que o sistema funciona bem e que as mortes acontecem porque alguém errou. O motorista estava distraído, o motociclista foi imprudente, o pedestre atravessou fora da faixa. Cada sinistro encontra rapidamente um responsável, e a análise costuma se encerrar aí. O problema é que essa lógica, apesar de intuitiva, tem limites muito claros.

Seres humanos erram. Erram porque se distraem, porque se cansam, porque tomam decisões equivocadas sob pressão, porque interpretam mal uma informação ou simplesmente porque não conseguem reagir a tempo. Esperar que milhões de pessoas ajam de forma perfeita, o tempo todo, em ambientes complexos e muitas vezes hostis, não é realista. Quando a segurança depende exclusivamente do comportamento ideal, ela se torna frágil por definição.

Além disso, essa visão individualizante tende a produzir respostas reativas. Intervém-se depois que o sinistro acontece, ajusta-se a sinalização após uma sequência de mortes, reforça-se a fiscalização onde os números já explodiram. Pouco se questiona se a via induz velocidades incompatíveis, se o desenho favorece conflitos, se o ambiente urbano expõe usuários vulneráveis a riscos excessivos. O sistema permanece praticamente o mesmo; apenas se tenta conter seus efeitos mais graves.

“A visão de que só a imprudência dos motoristas é responsável pela tragédia que representa o trânsito no Brasil é um limitador das ações que podem e devem ser tomadas para evitar mortes e feridos no trânsito.” 

Outro efeito colateral desse modelo é a naturalização da tragédia. Quando a culpa é sempre do usuário, a morte passa a ser vista como consequência inevitável de escolhas individuais. A discussão se encerra no campo moral — imprudência versus prudência — e se afasta do campo técnico e institucional. Com isso, perde-se a oportunidade de aprender com os erros e de redesenhar o sistema para que eles não se repitam com o mesmo desfecho.

O resultado desse paradigma é conhecido: avanços pontuais, reduções temporárias e uma incapacidade crônica de sustentar quedas significativas nos números de mortos e feridos graves. O modelo tradicional até pode reduzir riscos em situações específicas, mas não consegue transformar o trânsito em um ambiente estruturalmente seguro.

É exatamente diante desse impasse que surge a necessidade de uma mudança mais profunda. Não se trata de abandonar a educação, a fiscalização ou a responsabilização, mas de reconhecer que elas são insuficientes quando atuam sozinhas. A pergunta deixa de ser “quem errou?” e passa a ser “por que o sistema permitiu que um erro comum resultasse em morte?”. É essa virada que abre caminho para o conceito de Sistema Seguro.

O que é o Sistema Seguro

O Sistema Seguro surge justamente como resposta às limitações do modelo tradicional de segurança viária. Ele não nasce de uma ideia abstrata ou de uma moda conceitual, mas da constatação prática de que continuar fazendo mais do mesmo não seria suficiente para salvar vidas. Consolidado internacionalmente e adotado como eixo central das políticas globais de segurança viária, o Sistema Seguro propõe uma mudança radical na forma de entender o trânsito.

A premissa fundamental é simples e, ao mesmo tempo, poderosa: o erro humano é inevitável. Pessoas vão se distrair, interpretar mal uma situação, reagir tarde demais ou tomar decisões equivocadas. O Sistema Seguro não ignora esse fato nem tenta combatê-lo com expectativas irreais de comportamento perfeito. Ao contrário, ele parte dessa realidade para projetar um sistema que seja tolerante ao erro e, ainda assim, preserve a vida.

Outro princípio central é o reconhecimento de que o corpo humano tem limites físicos bem definidos. Acima de determinadas velocidades ou forças de impacto, lesões graves e mortes se tornam praticamente inevitáveis, independentemente do uso de equipamentos de segurança. Isso significa que a segurança não pode ser tratada apenas como uma questão de escolha individual, mas como uma questão de engenharia, planejamento e política pública.

Nesse contexto, o Sistema Seguro redistribui responsabilidades. A segurança deixa de ser um dever quase exclusivo do usuário da via e passa a ser uma responsabilidade compartilhada entre todos os atores que concebem, constroem, regulam, fiscalizam e operam o sistema de transporte. Projetistas de vias, gestores públicos, fabricantes de veículos, legisladores e operadores de fiscalização passam a ter um papel ativo na prevenção de mortes e lesões graves.

O objetivo final do Sistema Seguro é claro: garantir que falhas humanas não resultem em consequências fatais. Isso não significa aceitar o erro, nem abrir mão de regras, fiscalização ou educação. Significa reconhecer que, mesmo com todos esses esforços, erros continuarão acontecendo e que o sistema precisa estar preparado para absorvê-los sem transformar falhas comuns em tragédias irreversíveis.

Ao assumir essa lógica, o Sistema Seguro estabelece uma mudança ética profunda. A morte no trânsito deixa de ser vista como um efeito colateral aceitável da mobilidade e passa a ser tratada como um fracasso do sistema. Essa mudança de olhar redefine prioridades, orienta investimentos e transforma a segurança viária de um problema comportamental em um desafio estrutural.

Precisamos aprofundar os princípios que sustentam o Sistema Seguro e entender por que eles representam uma ruptura tão significativa com a forma tradicional de pensar o trânsito.

Os princípios que sustentam o Sistema Seguro

O Sistema Seguro não é apenas uma diretriz genérica, mas um conjunto coerente de princípios técnicos e éticos que orientam decisões de projeto, gestão e operação do sistema viário. Esses princípios formam a base sobre a qual políticas públicas, intervenções urbanas e estratégias de fiscalização devem ser construídas.

O primeiro deles é a aceitação do erro humano como elemento inerente ao comportamento das pessoas. Em vez de tratar o erro como exceção, o Sistema Seguro o reconhece como parte natural da interação humana com sistemas complexos. Essa compreensão muda o foco da segurança: o objetivo deixa de ser eliminar o erro e passa a ser impedir que ele resulte em consequências fatais.

O segundo princípio é o respeito aos limites físicos do corpo humano. A tolerância do corpo a forças de impacto é conhecida e mensurável. Quando esses limites são ultrapassados, a probabilidade de morte ou lesão grave cresce de forma exponencial. Por isso, velocidades, geometrias viárias e padrões de circulação devem ser definidos com base naquilo que o corpo humano é capaz de suportar, e não apenas na fluidez do tráfego ou na conveniência operacional.

Outro princípio essencial é a responsabilidade compartilhada. No Sistema Seguro, a segurança não depende exclusivamente das escolhas individuais dos usuários. Projetistas, gestores, fabricantes, legisladores e operadores têm o dever de criar condições que reduzam riscos e mitiguem consequências. Quando um sinistro ocorre, a análise não se encerra na conduta do usuário, mas investiga falhas e fragilidades em todo o sistema.

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Há também o compromisso com a prevenção sistêmica e contínua. Em vez de atuar apenas de forma reativa, após a ocorrência de sinistros graves, o Sistema Seguro prioriza a identificação de riscos antes que vidas sejam perdidas. Isso implica planejar, monitorar, avaliar e ajustar permanentemente o sistema, buscando elevar o nível de segurança de forma progressiva e sustentável.

Por fim, o Sistema Seguro se ancora em uma premissa ética clara: nenhuma morte ou lesão grave no trânsito é aceitável. Esse princípio redefine o que se considera sucesso ou fracasso nas políticas de mobilidade. Reduzir números não é suficiente se o sistema continua produzindo vítimas evitáveis. A segurança deixa de ser uma variável secundária e passa a ocupar o centro das decisões.

Esses princípios, quando combinados, produzem uma mudança profunda na forma de pensar o trânsito. Eles deslocam o debate da culpa individual para a responsabilidade coletiva e estabelecem as bases para intervenções mais eficazes. No próximo capítulo, vamos ver como essa lógica se traduz em ações concretas e transforma a maneira de planejar e operar o sistema viário.

Como o Sistema Seguro se materializa na prática

O Sistema Seguro deixa de ser um conceito abstrato quando se traduz em decisões concretas sobre como as cidades são planejadas, como as vias são projetadas, quais tecnologias são adotadas e como os serviços públicos são organizados. Ele se manifesta na prática por meio de um conjunto integrado de ações que atuam antes, durante e depois dos sinistros, sempre com o objetivo de preservar a vida.

No planejamento urbano e no uso do solo, o Sistema Seguro prioriza modelos de mobilidade que reduzam a exposição ao risco. Incentivar o transporte coletivo, os deslocamentos a pé e por bicicleta, e organizar a cidade de forma mais compacta diminui a necessidade de viagens longas e reduz conflitos perigosos entre diferentes usuários. A mobilidade deixa de ser pensada apenas em termos de velocidade e passa a ser estruturada a partir da segurança e da acessibilidade.

Na infraestrutura viária, o foco está em projetos que induzam comportamentos seguros. Vias autoexplicativas, interseções bem desenhadas, travessias seguras, separação adequada entre modos de transporte e tratamento correto das margens da via reduzem a probabilidade de erros e, quando eles ocorrem, limitam suas consequências. A engenharia deixa de reagir a sinistros passados e passa a atuar de forma preventiva, antecipando riscos.

Os veículos também cumprem papel central. O Sistema Seguro defende a adoção de padrões mínimos de segurança, tecnologias de prevenção de colisões e dispositivos que reduzam a gravidade dos impactos. Sistemas de frenagem automática, controle de estabilidade, proteção a pedestres e limites inteligentes de velocidade não substituem o comportamento responsável, mas funcionam como camadas adicionais de proteção quando algo dá errado.

No campo do uso seguro das vias, legislação, fiscalização e educação continuam sendo importantes, mas passam a atuar de forma integrada ao ambiente viário e à tecnologia. Regras claras, fiscalização consistente e comunicação eficaz reforçam comportamentos seguros, enquanto o próprio desenho das vias e dos veículos torna a escolha segura a mais fácil e intuitiva.

Por fim, o Sistema Seguro reconhece que nem todo sinistro pode ser evitado. Por isso, a resposta pós-sinistro é tratada como parte essencial do sistema. Atendimento rápido e qualificado, integração entre serviços de emergência, investigação técnica e apoio às vítimas e familiares reduzem a gravidade das consequências e geram aprendizado para evitar novas ocorrências.

Quando esses elementos atuam de forma coordenada, o resultado é um sistema mais resiliente. A segurança deixa de depender de um único fator e passa a ser construída por múltiplas camadas de proteção, capazes de absorver falhas humanas sem transformar erros comuns em perdas irreparáveis.

Por que a velocidade é o coração do Sistema Seguro

Entre todos os fatores de risco presentes no trânsito, a velocidade ocupa uma posição central no Sistema Seguro. Isso acontece porque ela influencia diretamente tanto a probabilidade de um sinistro ocorrer quanto a gravidade de suas consequências. Quanto maior a velocidade, menor o tempo de reação, maior a distância de frenagem e, sobretudo, maior a energia liberada em um impacto. Esses efeitos não são subjetivos; são regidos por leis físicas bem conhecidas.

O Sistema Seguro parte do entendimento de que existe uma relação direta entre velocidade e tolerância do corpo humano. Acima de determinados limites, simplesmente não há tecnologia, habilidade ou equipamento capaz de evitar lesões graves ou mortes. Por essa razão, a definição de velocidades seguras não pode ser tratada como uma questão de conveniência, fluidez do tráfego ou preferência individual. Ela precisa ser uma decisão técnica, orientada pela proteção da vida.

Em ambientes urbanos, onde há interação constante entre veículos, ciclistas e pedestres, o risco se multiplica. Nesses contextos, mesmo pequenas variações de velocidade produzem diferenças significativas no desfecho de um sinistro. Uma colisão a 30 km/h pode resultar em ferimentos leves; a 50 km/h, a probabilidade de morte cresce de forma dramática. O Sistema Seguro incorpora esse conhecimento e o transforma em critério de projeto e gestão.

Por isso, a velocidade deixa de ser apenas um comportamento a ser fiscalizado e passa a ser uma variável estruturante do sistema. Ela é controlada por meio do desenho viário, da organização do espaço urbano, da tecnologia embarcada nos veículos e da coerência entre função da via e limite estabelecido. O objetivo não é apenas fazer cumprir a regra, mas criar um ambiente em que velocidades perigosas sejam naturalmente desencorajadas.

Essa mudança de abordagem tem implicações profundas. Quando a velocidade é tratada como elemento central, decisões de engenharia, planejamento e fiscalização passam a convergir. Intervenções deixam de ser pontuais e reativas e passam a integrar uma estratégia mais ampla de redução de riscos. O resultado é um sistema mais previsível, mais compreensível e, sobretudo, mais seguro para todos.

No Sistema Seguro, gerir a velocidade não é restringir a mobilidade, mas qualificá-la. É reconhecer que deslocar-se com segurança é mais importante do que deslocar-se rapidamente, e que nenhum ganho de tempo justifica a perda de vidas. É essa compreensão que sustenta a ideia de que a velocidade está no coração da transformação proposta pelo Sistema Seguro.

Por que o Sistema Seguro muda tudo

O Sistema Seguro muda tudo porque ele altera a pergunta fundamental que orienta a segurança viária. Em vez de questionar quem errou, ele questiona por que o sistema permitiu que um erro comum resultasse em morte ou lesão grave. Essa simples mudança de foco desloca o debate do campo moral para o campo técnico, institucional e ético, abrindo espaço para soluções mais eficazes e duradouras.

Ao adotar o Sistema Seguro, a responsabilidade pela segurança deixa de ser individualizada e passa a ser coletiva. O Estado assume um papel mais claro como garantidor da vida, não apenas como fiscal ou punidor. Projetar, regular e operar o sistema de transporte passa a ser entendido como uma obrigação pública de proteção, e não apenas como uma atividade voltada à fluidez ou à eficiência econômica.

Essa abordagem também muda a forma de planejar e investir. Recursos deixam de ser direcionados apenas para ações reativas e passam a priorizar intervenções estruturais, capazes de reduzir riscos antes que vidas sejam perdidas. A segurança deixa de ser um “acessório” dos projetos viários e passa a ser critério central de decisão, influenciando traçados, velocidades, prioridades modais e padrões de ocupação urbana.

O Sistema Seguro transforma ainda a relação entre mobilidade, saúde e desenvolvimento. As mortes no trânsito deixam de ser tratadas como eventos isolados e passam a ser reconhecidas como um problema de saúde pública e de justiça social, que afeta de forma desproporcional os mais vulneráveis. Com isso, a segurança viária se integra a agendas mais amplas, como sustentabilidade, equidade e qualidade de vida.

Outro aspecto decisivo é a mudança cultural que o Sistema Seguro promove. Ao afirmar que nenhuma morte evitável é aceitável, ele redefine o que a sociedade considera normal. A tolerância histórica à violência no trânsito começa a ser questionada, e o sucesso deixa de ser medido apenas por reduções percentuais, passando a ser avaliado pela capacidade do sistema de proteger pessoas em situações reais, com erros reais.

Em síntese, o Sistema Seguro muda tudo porque ele não tenta apenas melhorar o trânsito. Ele redefine prioridades, responsabilidades e valores. Ao colocar a vida no centro das decisões, transforma a segurança viária de um problema recorrente em um compromisso permanente, capaz de orientar políticas públicas mais humanas, coerentes e eficazes.

O que isso significa para o Brasil

Trazer o conceito de Sistema Seguro para a realidade brasileira exige mais do que aderir a um discurso internacional. Significa confrontar práticas históricas, rever prioridades e alinhar decisões técnicas, políticas e institucionais a um objetivo claro: reduzir de forma consistente e sustentável as mortes e lesões graves no trânsito. O Brasil convive há décadas com números elevados de sinistros, especialmente em rodovias e áreas urbanas periféricas, o que evidencia a urgência dessa mudança de abordagem.

O país já possui bases normativas compatíveis com o Sistema Seguro. A Política Nacional de Trânsito e o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito incorporam princípios que dialogam diretamente com a responsabilidade compartilhada, a proteção dos usuários vulneráveis e a necessidade de ações integradas. O desafio não está na ausência de diretrizes, mas na capacidade de transformá-las em prática cotidiana, de forma consistente e contínua.

No contexto brasileiro, a adoção do Sistema Seguro implica repensar o planejamento urbano, a hierarquia viária e a gestão da velocidade, especialmente em áreas com grande mistura de usuários. Implica também investir de maneira mais estratégica em infraestrutura segura, fiscalização orientada por risco, tecnologias veiculares e resposta pós-sinistro. Trata-se de sair da lógica da ação pontual e caminhar para uma política estruturante, baseada em evidências e orientada por resultados.

Outro aspecto central é o enfrentamento das desigualdades. No Brasil, os impactos da violência no trânsito recaem de forma desproporcional sobre pedestres, ciclistas, motociclistas e populações de menor renda. O Sistema Seguro oferece um caminho para corrigir essa distorção ao priorizar quem está mais exposto e ao reconhecer que a segurança viária é também uma questão de equidade e justiça social.

Implementar o Sistema Seguro no Brasil exige coordenação entre diferentes níveis de governo, integração entre órgãos e continuidade das políticas públicas para além de ciclos eleitorais. Exige, sobretudo, uma mudança cultural: deixar de aceitar a morte no trânsito como algo inevitável e passar a tratá-la como falha do sistema. Essa é uma escolha política e técnica, com impactos diretos sobre a vida de milhões de pessoas.

Ao alinhar o país a essa abordagem, o Brasil não apenas segue uma recomendação internacional, mas assume um compromisso com um modelo de mobilidade mais humano, mais seguro e mais compatível com os desafios contemporâneos. O Sistema Seguro, nesse contexto, deixa de ser uma ideia importada e passa a ser uma ferramenta concreta para salvar vidas.

A pergunta que fica

O Sistema Seguro muda tudo porque ele não pergunta quem errou. Ele pergunta por que alguém morreu — e o que precisa mudar para que isso nunca mais aconteça.

Ao longo deste percurso, ficou claro que o Sistema Seguro não é apenas um conjunto de técnicas ou recomendações operacionais. Ele representa uma mudança profunda na forma de enxergar o trânsito, a mobilidade e o papel do Estado na proteção da vida. Ao reconhecer que o erro humano é inevitável e que o sistema deve estar preparado para absorvê-lo sem produzir mortes, essa abordagem nos obriga a rever o que historicamente aceitamos como normal.

A pergunta que fica não é simples, mas é necessária: por que ainda aceitamos que pessoas morram no trânsito como se isso fosse um efeito colateral inevitável da mobilidade? Quando um sistema é projetado sabendo que falhas ocorrerão, mas não se organiza para proteger vidas diante dessas falhas, ele está assumindo um risco que poderia ser evitado. Nesse sentido, cada morte evitável revela menos sobre o indivíduo e mais sobre as escolhas coletivas que moldaram aquele sistema.

O Sistema Seguro desloca o foco do julgamento para a responsabilidade. Ele não elimina a importância das regras, da fiscalização ou da educação, mas deixa claro que esses elementos só são eficazes quando inseridos em um sistema que prioriza a vida em todas as suas decisões. A segurança deixa de ser um objetivo secundário e passa a ser o critério que orienta projetos, investimentos e políticas públicas.

No fundo, a transformação proposta pelo Sistema Seguro é também ética. Ela nos convida a abandonar a lógica da tolerância à perda e a assumir que nenhuma morte no trânsito é aceitável quando existem meios técnicos e institucionais para evitá-la. Essa mudança não acontece de forma automática, nem sem resistências, mas começa com uma decisão clara sobre o que queremos proteger.

A pergunta que fica, portanto, é direta e inevitável: estamos dispostos a projetar, gerir e operar nossos sistemas de mobilidade para funcionar bem, ou estamos prontos para fazê-los existir, antes de tudo, para salvar vidas? O Sistema Seguro mostra que essa escolha é possível. O que resta decidir é se estamos prontos para fazê-la.


Autor

MORAES, Jeferson Almeida, Coordenador-Geral da PRF, Graduado em Engenharia Civil pela UEFS, e pós-graduado em Engenharia de Tráfego e Segurança Viária pela Faculdade Focuspós-graduado em Avaliação e Perícia de Imóveis pela Faculdade Líbano, pós-graduando em Engenharia Diagnóstica: Patologia, Desempenho e Perícias na Construção Civil pela Faculdade Unyleia

Referências

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Global Plan for the Decade of Action for Road Safety 2021–2030. Genebra: World Health Organization, 2021. Disponível em:

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. World report on road traffic injury prevention. Genebra: World Health Organization, 2004. Disponível em:

ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT; INTERNATIONAL TRANSPORT FORUM. Towards Zero: Ambitious Road Safety Targets and the Safe System Approach. Paris: OECD Publishing, 2008. Disponível em:

INTERNATIONAL ROAD ASSESSMENT PROGRAMME (iRAP). Safe System Approach. Disponível em:

UNITED STATES DEPARTMENT OF TRANSPORTATION. What Is a Safe System Approach? Washington, DC. Disponível em:

BRASIL. Ministério dos Transportes. Sistema Seguro e Visão Zero – PNATRANS. Disponível em:

AVELLEDA, Sérgio. Mobilidade urbana e segurança viária: limites do modelo centrado no comportamento individual. WRI Brasil, 2019. Disponível em:

ELVIK, Rune. The power model of the relationship between speed and road safety. Institute of Transport Economics, Oslo, 2009.

Comentários

  1. Excelente texto, meu chefe! Mas já que pediu questionamentos, vamos lá... porque o Brasil tem muito mais mortes que os países da Europa? A infraestrutura deles é tão melhor que a nossa? E, porque os Estados Unidos, que tem estradas muito boas, seguem com tantas mortes? Reconheço a importância do Sistema Seguro e do Visão Zero junto a ele, mas acho que o eixo educação deveria ser mais aprofundado dentro dos nossos estudos. A gente vê coisas nas estradas que assustam... a vontade é filmar o usuário e colocar em redes sociais, pois aí talvez ele tivesse vergonha do que faz....

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    1. O Brasil não mata mais porque o brasileiro erra mais, mas porque aqui o erro mata mais. Países que avançaram adotaram o princípio do Sistema Seguro: o erro humano é inevitável, mortes e lesões graves não. Isso exige vias que induzem comportamentos seguros, velocidades compatíveis e fiscalização consistente. Educação é essencial, mas só funciona quando é coerente com o projeto da via e com a gestão da velocidade. Segurança viária eficaz não moraliza: protege. Adotar a cultura de vias seguras não compete com a necessidade de investir em educação. Muitas de suas perguntas estão respondidas nessa palestra, recomendo assistir: https://www.youtube.com/live/Y9JIgIrOMO0?si=qfNU_zNU9Em__aP7

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  2. Agora sobre o tema velocidade... eu entendo que, obviamente é inviável, mas um radar nas nossas estradas a cada 500 m iria fazer o número de mortes despencar absurdamente... e para que não se diga que é a indústria da multa, a penalidade poderia ser prestação de serviços comunitários...

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  3. Sobre o Sistema Seguro, acho que existe um risco real de que, ao focar excessivamente na infraestrutura e na "tolerância ao erro", acabemos negligenciando a formação do cidadão. Por isso vejo a importância da educação como um dos pilares que sustentam qualquer sistema, por mais seguro que ele seja.
    Não é uma questão de duvidar do Sistema Seguro, mas entender que a a Infraestrutura não substitui a consciência. É inegável que o Sistema Seguro salva vidas ao projetar vias que perdoam erros. No entanto, focar apenas no ambiente físico sem priorizar uma educação profunda e contínua pode criar um cenário de "falsa segurança". No meu entendimento precisamos valorizar mais a educação por três motivos fundamentais:
    Em primeiro lugar que a a ética precede à engenharia: uma rua pode ser projetada para ser lenta, mas a educação é o que define como o indivíduo se comporta quando a fiscalização não está olhando. A educação viária não trata apenas de "regras de placa", mas de alteridade — a capacidade de reconhecer o outro como sujeito de direitos. Sem uma base educativa sólida, o condutor apenas "obedece" ao design da via por imposição, e não por compreensão do valor da vida alheia.
    Em segundo lugar, entendo que o Sistema Seguro é excelente para lidar com a falha não intencional (um momento de distração). Contudo, ele tem limites contra a imprudência deliberada (beber e dirigir, rachas ou o uso de celular). Nesses casos, a barreira não pode ser apenas o asfalto ou o airbag; a barreira precisa ser interna. A educação é a única ferramenta capaz de reduzir a intenção de transgredir.
    Por fim, o usuário como agente de mudança, pois se não educarmos a sociedade sobre os porquês do Sistema Seguro, as intervenções de engenharia (como a redução de limites de velocidade) serão vistas apenas como "indústria da multa" ou autoritarismo estatal.
    Outros pontos sobre a importância da educação:
    Educação gera aceitação: um cidadão educado entende que a via mais lenta na frente de uma escola é um benefício coletivo.
    Educação gera cobrança: somente uma população consciente dos seus direitos sabe cobrar dos gestores a implementação de vias mais seguras.
    Em vez de vermos a educação como um modelo "ultrapassado", devemos vê-la como o software que roda no hardware (a via). Um hardware moderno com um software corrompido continuará apresentando falhas. A verdadeira mudança de paradigma acontece quando a infraestrutura protege o corpo, enquanto a educação molda o caráter.

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O Valor da Cidade Segura: Trânsito e Mercado Imobiliário

Este artigo analisa os impactos de intervenções de segurança viária na valorização imobiliária, com ênfase em rotatórias, medidas de traffic calming e infraestruturas cicloviárias. O objetivo geral foi compreender de que modo tais intervenções influenciam a qualidade urbana, a dinâmica dos deslocamentos e o ambiente construído, contribuindo para processos de revalorização de áreas residenciais e comerciais. Para tanto, realizou-se uma revisão bibliográfica narrativa, fundamentada em estudos nacionais e internacionais que abordam segurança viária, comportamento dos usuários, mobilidade ativa e fatores associados ao valor dos imóveis. A literatura consultada indica que rotatórias bem projetadas reduzem conflitos e aumentam a fluidez, que medidas de acalmamento de tráfego diminuem velocidades e ampliam a segurança, e que ciclovias qualificadas fortalecem a mobilidade ativa e promovem vitalidade urbana. Esses elementos combinados favorecem ambientes urbanos mais seguros, eficientes e atrat...

Fissuras, Trincas e Rachaduras: Como Ler os Sinais da Edificação

1. Introdução – Por que nem toda abertura na parede é igual É difícil encontrar uma edificação que, ao longo do tempo, não apresente algum tipo de abertura em paredes, lajes ou revestimentos. Pequenas marcas, linhas finas ou aberturas mais evidentes costumam gerar preocupação imediata em proprietários e usuários, quase sempre acompanhadas da mesma pergunta: isso é grave? Na prática da engenharia, a resposta quase nunca é simples. Isso porque nem toda abertura representa um risco estrutural , assim como nem todo problema sério se manifesta de forma ostensiva logo no início. Fissuras, trincas e rachaduras são manifestações distintas, com causas, significados técnicos e implicações completamente diferentes, embora frequentemente sejam tratadas como se fossem a mesma coisa. A patologia das edificações ensina que essas manifestações não surgem por acaso. Elas são, na verdade, sinais visíveis de processos físicos, químicos ou mecânicos que estão ocorrendo de forma silenciosa na edificação . ...

Além do Projeto: por que a engenharia não termina no desenho

  Durante muito tempo, a engenharia foi tratada como uma atividade que se encerra no projeto aprovado, no cálculo conferido ou no desenho assinado. Como se, a partir dali, tudo estivesse resolvido. A experiência mostra exatamente o contrário. É fora da prancheta — no uso real, no imprevisto e no comportamento humano — que a engenharia começa a ser verdadeiramente testada. Um projeto pode estar tecnicamente correto e, ainda assim, produzir riscos. Pode cumprir normas e falhar na prática. Pode ser elegante no papel e ineficiente na vida real. Isso acontece porque o desenho não enfrenta o tráfego em horário de pico, não sente a pressa de quem atravessa uma via, não reage à fadiga de um motorista ou à ausência de manutenção ao longo dos anos. O projeto prevê, mas a realidade decide. Ir além do projeto é compreender que engenharia é responsabilidade contínua. É assumir que cada decisão técnica tem impacto direto sobre pessoas reais, em contextos reais. Uma largura de faixa, um raio de c...